sábado, 8 de setembro de 2007

EMPRESA REDE E REDES EMPRESARIAIS: A ESTRATÉGIA EMPRESARIAL DO 3 MILÊNIO

Texto de: Ruy de A. Mattos
http://www.emco.com.br/artigos06.htm


As Redes Empresarias são estruturas dinâmicas, virtuais e flexíveis de produção e venda de bens e de serviços. Baseiam-se na interdependência de seus parceiros que constróem um conjunto sinérgico, cuja força resultante é sempre maior do que a soma das forças de seus componentes, com a vantagem destes não perderem suas identidades e características individuais.

É da natureza da Rede Empresarial crescer continuamente, impulsionada por um processo descentralizador que multiplica os centros decisórios, sem a perda da visão do todo interconectado. Ela não cresce vegetativamente, por incorporação ou massificação, mas por integração, interdependência e cooperação entre seus parceiros.

A estratégia de Rede pode ser resumida em duas diretrizes:

Primeira: tornar grandes e fortes as pequenas e médias empresas, sem que elas percam sua identidade e sua autonomia.

Como? Criando-se redes de empreendimentos, através de alianças e parcerias, combinando-se, desse modo suas competências, suas necessidades, seus recursos e suas vocações.
Qual o resultado disso? O aumento das vendas e da lucratividade, a redução de custos, a publicidade efetiva, a facilidade de acesso ao crédito e às novas tecnologias.

Segunda: tornar ágeis e flexíveis, as grandes empresas e instituições (inclusive as públicas), aumentando sua qualidade e sua produtividade e ampliando seu campo de atuação.

Como? Remodelando a Organização, substituindo a estrutura piramidal por estrutura de Rede Interna de modo a descentralizar, efetivamente, o poder decisório, substituindo os níveis hierárquicos por níveis de competência para solucionar problemas e criar soluções; substituindo os controles formais e as regras burocráticas por controles de resultados e de qualidade dos procedimentos.

Esta é uma mudança do modelo de gestão e de estruturação da atividade empresarial. Neste caso estamos substituindo o anacrônico modelo hierárquico da Pirâmide Burocrática: concentrador de decisões, gastador de recursos, amortecedor da criatividade e desqualificador do empregado e do cliente, pelo moderno Modelo da Rede Empresarial: descentralizador de decisões, multiplicador de recursos, estimulador da criatividade e valorizador do empregado e do cliente.

As vantagens do Modelo de Rede sobre o Modelo de Pirâmide são inúmeras. A grande dificuldade é fazer-se esta transição, uma vez que exige mudança de mentalidade dos indivíduos e da cultura da Organização (Empresa ou Instituição).

Mas tudo indica que esta é uma mudança inevitável. Quem deixar para depois vai, certamente, encontrar muitas dificuldades pela frente, neste cenário de crescente competitividade e de clientes e cidadãos cada vez mais exigentes quanto aos produtos, preços e serviços que recebem.

Nesse sentido, concordamos inteiramente com Gilson Schwartz, articulista da FOLHA DE S. PAULO, quando afirma que "as principais mudanças econômicas dessa época de transição apontam todas rumo ao reforço das redes. Assim, paradoxalmente, o capitalismo vai colocando em primeiro plano as qualidades dos corpos "coletivos", que, para funcionarem, exigem de cada indivíduo mais interação do que competição, mais criatividade do que reatividade."

A empresa-rede constrói-se de fora para dentro, respondendo a cada demanda do cliente com um novo produto ou serviço, num contínuo processo de feedback ao seu desempenho.

O símbolo mundial dessa estratégia é a Toyota, que mantém uma rede de comunicação que a interliga com seus clientes de carteirinha. No Japão, um cliente-Toyota possui um cartão magnético que, ao inserir no computador da loja, obtém todos os dados disponíveis sobre produção, modelos, preço, tempo de entrega, condições de compra etc, etc e pode alimentar o sistema de informações com seus próprios interesses e exigências - que serão prontamente atendidas. Os consultores de venda da Toyota não estão interessados em fechar a venda daquele veículo, para aquele cliente - eles estão comprometidos em criar um vínculo vitalício de parceria com a "equipe-cliente"(sua família e seus descendentes), de modo a servi-los com a melhor qualidade e o menor preço possíveis.

São iniciativas como estas que concretizam a relação de parceria com os clientes, trazendo-os para dentro da empresa e tendo-os como consumidores de qualidade real. Para tanto é necessário perspicácia, coragem e humildade que, combinadas, criam a atitude de aprendiz, indispensável ao desenvolvimento e ao sucesso de qualquer pessoa ou Organização.

Desde a década de 60, a Volvo sueca vem remando contra a maré Taylorista das linhas de montagem, tendo obtido ótimos resultados com o modelo de Células de Trabalho, segundo o qual divide todo o seu processo produtivo. Desde então, várias empresas vêm seguindo o exemplo da fábrica Kalmar da Volvo, reduzindo drasticamente seus níveis hierárquicos, dando maior autonomia a cada Unidade Produtiva, que assume o perfil de micro-empresas interligadas umas às outras por redes de permuta ou compra e venda de produtos e serviços.

A Revista EXAME tem divulgado diversas experiências de empresas que se reestruturaram em rede (interna) de células de produção, centros de lucros ou configuração semelhante:

A Asea Brown Boveri (ABB) uma mega multinacional espalhada em 140 países e que emprega 213.000 funcionários, passou por uma revolução administrativa com a descentralização do poder e a divisão da companhia em unidades muito menores, inspiradas nas pequenas empresas. Aproximou a companhia dos clientes. Estruturou-se em 65 áreas de negócios e 5.000 centros de lucros.

A Delco, fabricante de baterias, adotou um sistema de gestão participativa em que os 280 funcionários (fábrica de Piracicaba) foram divididos em 30 times, compostos de até 15 pessoas. Essas equipes têm autonomia para definir turnos de trabalho, volume de produção e contratação de pessoal.

A Stihl brasileira, fabricante de motosserras, reestruturou-se em oito minifábricas que mantém entre si o relacionamento fornecedor-cliente. Cada minifábrica é avaliada todos os meses, de acordo com cinco indicadores: custo operacional, aproveitamento das máquinas, índice de desperdício, pontualidade no atendimento e qualidade do produto final. A cada seis meses, os empregados das minifábricas, com melhores resultados, são premiados com até 1,3 salário.

A Marcopolo, a maior montadora de carrocerias de ônibus, hoje um exemplo brasileiro de qualidade, estrutura seu processo produtivo em células de manufatura, ao invés de linhas de produção contínuas, desde 1988.

Além dessas empresas, o Grupo ALGAR, de Uberlândia, em l989, operou uma grande transformação em sua estrutura, passando a adotar o Modelo de Rede como base da gestão de suas 25 empresas. Sua meta para este ano é transformar cada uma de suas unidades organizacionais em micro-empresa, com elevada autonomia de gestão, constituindo, em conjunto, uma espécie de federação empresarial.

Quanto às redes inter-empresariais, temos diversos exemplos eloquentes da expansão deste modelo de empreendimento no Brasil.

Há diversas empresas que vêm implementando programas de capacitação e consultoria gratuitas junto a seus fornecedores, como parte da estratégia de just-in-time que estão implantando. "A Gradiente, está apostando suas fichas em dez pequenos fabricantes de caixas para televisores (...); a Credicard, selecionou seis prestadores de serviços, entre empresas de telemarketing e de venda de cartões; a divisão têxtil da Rhodia procura melhorar o desempenho de oitenta pequenos micro empreendedores (...); a Agrale, fabricante de tratores, deslanchou um projeto para beneficiar setenta dos seus 450 fornecedores."

Além do just-in-time, há diversas empresas criando redes de produção através da complementaridade de suas competências, sem, no entanto, se fundirem. Estão criando alianças estratégicas ou corporações virtuais.

Foi o que fizeram a Sadia e a Refinações de Milho-Brasil. "Sem deixarem de ser concorrentes no mercado de óleo comestível, elas acabaram de lançar, juntas, a margarina Mazola," através de uma aliança estratégica na qual a Sadia entrou com a sua linha de produção e sua frota de distribuição formada por 1.750 caminhões e a Refinações de Milho-Brasil entrou com a grande penetração junto aos consumidores da marca Mazola e com a matéria-prima. O resultado dessa aliança foi a conquista de 11% do mercado de margarinas em três anos de atuação.

Outro caso, já bastante conhecido é a PROMON que, de uma empresa de projetos de engenharia, transformou-se numa parceira de corporações virtuais com a Northern Telecom do Canadá, na área de Telecomunicações, com a Hughes, no setor de telecomunicações via satélite e outras, de modo que hoje "extrai 60% de seu faturamento de 230 milhões de dólares de suas empresas virtuais".

A VARIG criou uma corporação virtual com a Delta Air Line e com a Japan Air Line, conseguindo, com isso, entrar em mercados que sozinha não conseguiria; além disso, VARIG, Transbrasil e VASP operam há muito tempo a ponte aérea Rio-São Paulo como uma corporação virtual, talvez a primeira no Brasil.

A Bauducco estabeleceu parcerias com a americana Mars, fábrica americana de chocolates e com a suíça Wander para o lançamento de novos biscoitos no mercado, numa relação ganha-ganha, em que cada parceiro investe e recebe 50% dos resultados da corporação virtual.

A Coopercentral, cooperativa de Chapecó, Santa Catarina, ela própria já uma rede de empreendimentos, estabeleceu uma corporação virtual com outra cooperativa, a Cotrijuí, do Rio Grande do Sul, outra rede composta por mais de 14.000 associados, para a produção de salames e lingüiça, com a marca Aurora. "O negócio tem gerado faturamento mensal de cerca de 750.000 dólares, já estão introduzindo o 3o turno na Cotrijuí, enquanto a Coopercentral economizou 15 milhões de dólares ao evitar construir nova fábrica."

Há uma empresa-rede típica que resultou do arrojo de quatro jovens empreendedores. Refiro-me à Prestar Serviços, que estruturou-se numa enorme rede de prestação de serviços de socorro a automóveis, 24 horas por dia, em qualquer lugar do Brasil. "A empresa é o resultado de um minucioso trabalho de busca e formação de alianças estratégicas (...) São mais de 15.000 alianças feitas com autônomos, como médicos e eletricistas, ou com donos de pequenos negócios, como hotéis e hospitais. A chave do sucesso da Prestar está justamente em unir a necessidade que algumas empresas têm de oferecer bons serviços a seus consumidores e aqueles autônomos e pequenos empresários que podem executar esses serviços. (...)

Foi com essa estrutura, de alianças numa ponta e clientes que precisavam de serviços na outra, que a Prestar conseguiu, em seu primeiro ano de vida, um faturamento de 1,5 milhão de dólares".

Outro fenômeno que se consolida e expande vertiginosamente no Brasil é a rede de vendas a domicílio, combinada ao marketing de rede. Ao lado da veterana Avon, com suas 330.000 revendedoras, estruturou-se a Natura, também na área de produtos de beleza, com 60.000 representantes de vendas e, mais recentemente, a empresa americana Amway, que já em 1994, movimentou um volume superior a 1,2 bilhão de dólares no Brasil, com seus mais de 150.000 distribuidores. No rastro desse sucesso, outra empresa americana que desembarcou aqui em 1994, foi a Nature"s Sunshine, que vende vitaminas e complementos alimentares e que já possuía, em seu primeiro ano de atividades, mais de 3.000 distribuidores.

Em Brasília, em 13 de maio de 1993 foi criada a Rede da Economia, formada por 16 empresários da área de farmácia. Hoje são 40 sócios, que, com esta estratégia, conseguiram driblar a crise que se abatia sobre a atividade e saíram vencedores, ao ponto de serem um dos maiores anunciantes da televisão local. No rastro desse caso de sucesso vêm surgindo diversas outras iniciativas, tais como: Rede de supermercados, de auto-peças, de lojas de cosméticos, de bancas de revistas, etc. demonstrando que a estratégia de rede veio para ficar e começa a expandir-se pelo Brasil afora. Hoje, é comum a vinda de empresários de outros estados a Brasília, para junto aos participantes da Rede da Economia, buscar informações e orientações para a construção de Redes Empresariais em suas cidades.

REFLEXÕES SOBRE A CULTURA BIOCÊNTRICA

Texto de Cezar Wagner de Lima Góis*
FONTE: http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=4722724698272237827


Diante do quadro atual da ciência, da mística e dos problemas humanos e sociais, dentro do enfoque da complexidade, do cotidiano e do amor, como podemos falar da Cultura? Como ficamos nós diante do nosso dia-a-dia consigo mesmo, com os outros e com a Natureza?

Para contribuir com essas reflexões pretendo expor aqui algumas questões relativas ao tema da Cultura Biocêntrica, como a visão antropocêntrica, a visão biocêntrica, o sentir-se vivo, o dançar a vida e o dançar com os outros. São questões que entendo essenciais para a mudança cultural numa perspectiva biocêntrica ou referenciada na vida.

É claro que a cultura atual leva em consideração a vida em todas as suas manifestações, mas a grande questão é o lugar que o ser humano se encontra para estar com ele mesmo e com todas as outras manifestações da vida.

Introdução


O processo civilizatório nos trouxe até aqui, um momento de profundos sentimentos e reflexões coletivas sobre a vida social, o conhecimento, a tecnologia e, mesmo, sobre a própria cultura. Avançamos, iluminamos cada vez mais o nosso caminhar, fazendo estradas e indo a lugares insuspeitados, por dentro e por fora de nós mesmos. Nada nos detém, nem mesmo a Natureza com a sua energia vital que, em muitos instantes, assinala de forma poderosa e dramática a sua presença no cenário social do mundo urbano e do mundo rural, como se viu recentemente nas imagens televisivas do Tsunami no Oceano Índico, dos furacões na Flórida, do terremoto no Paquistão e da seca na Amazônia.

Somos capazes de produzir alimentos, viajar, curar doenças, construir abrigos, proteger-se, aumentar a população, educar nossos filhos, fazer satélites, aviões, bombas, vacinas, músicas, poemas, esculturas e tantas obras de arte. Somos capazes de amar, de se enternecer com o vôo do pássaro e com o sorriso da criança. Podemos até pensar que a Natureza está fora de nós, que somos os senhores de si mesmos e de tudo que existe, vindo nós ao mundo para reinar sobre todas as criaturas. Somos capazes de controlar e de criar, somos senhores de Cronos e do planeta Terra.

Do pequeno osso usado como instrumento e dos primeiros sons articulados aos satélites espaciais, computadores e internet, percorremos um longo caminho de 07 milhões de anos, em contínuas bifurcações ou ramificações, onde um só caminhar prevaleceu e se mantém até hoje – o do homo sapiens ao homem moderno.

Do rosto voltado para o chão, depois para as distâncias, estamos hoje com o rosto voltado para as estrelas e para a nossa própria sutileza e refinamento interiores. Para onde estamos indo, se é que estamos indo para algum lugar? O que nos atrai, o que nos impulsiona pela roda do tempo nesses espaços dobrados e desdobrados de coisas e de vazios chamado Universo?

O poder da vida e o poder de viver do homo sapiens são obras fascinantes de uma realidade poderosa, incomensurável, sagrada, bela e profundamente sutil, presente mais precioso dos pais aos filhos e filhas, o misterioso processo da divisão e integração celulares que, em pouco tempo, multiplicando e enlaçando as células por dentro de algo maior (um embrião, um feto, um recém-nascido, um ser humano) amarra o mundo interno ao mundo externo, até por fim gerar a consciência, a cultura e a infinita possibilidade de realização humana.

A consciência é uma fantástica dobradura biológica, é a vida passando a se ver, a vida se pensando, o sentir que sente, o comer que come, o tocar que toca, o andar que anda, o olhar que olhar, o falar que fala.

Diante de tal quadro da realidade humana o ser humano pode ser levado a se perceber e a se sentir privilegiado, filho de um Pai Criador nascido para reinar no mundo. Apaixonado por si mesmo muitas vezes vai deixando de lado o vínculo natural que a tudo une em uma profunda e sensível dança da Natureza. Passa a representar a si mesmo como o Filho de Deus e se posta em um trono devastador das riquezas naturais, inclusive da vida que há em si mesmo (estilo de adoecer).

O homo sapiens sobreviveu, faz história, faz cultura e se afasta cada vez mais de sua antiga caverna, dos animais, dos elementos naturais, do seu corpo, de sua espontaneidade, do prazer que incendeia a mente e da convivência com o selvagem interior e abismal. Olha ele muitas vezes, com nostalgia, para o eterno e prometido paraíso, mas sabe, pela sensibilidade e consciência, que a flecha do tempo, voraz, continua seu trajeto cultural. Afastar-se da cultura não é possível sob pena de desaparecer; tampouco seguir pela mesma trajetória garantiria a repotencialização da nossa energia vital que, de tão bloqueada e deformada, gera doenças de civilização. O que fazer, se o caminhar antropocêntrico assinala seu esgotamento e limitação frente às novas exigências humanas, sociais e naturais?
Visão Antropocêntrica

A visão antropocêntrica nos legou extraordinários avanços no campo da ciência, da técnica e da organização social, construiu as bases da cultura moderna, iniciadas na Renascença e consolidadas no século XX. O Iluminismo francês, o Idealismo alemão, a grandeza da razão humana e seus métodos de pensar, controlar e atuar, foram em geral aplaudidos e reverenciados como o caminho pelo qual se faria a redenção humana, o novo homem e o estágio positivo da sociedade. A relação sujeito-objeto, no mundo ocidental, tornou-se a condição primeira, quem sabe a única, para o ato de conhecer.

Séculos se passaram desde Galileu e Descartes, levando a mente racional por caminhos de construção de modelos lógicos cada vez mais avançados no afã de conhecer, porém baseados em fragmentações e reducionismos da realidade; tecendo caminhos de linearidades e descontinuidades que marcaram o avanço da Ciência, da Técnica e da organização do Estado e da vida social.

Adentramos ao Século XXI com toda a robustez de um conhecimento, de uma tecnologia e de uma sociedade legislada, marcando a nossa entrada com novos conhecimentos e novas leis, porém trazendo à tona algumas outras perguntas essenciais à vida humana, em geral, relacionadas a um tema vital - o vínculo que estabelecemos, na trajetória da cultura moderna, para consigo mesmo, com os outros e com a Natureza, e suas conseqüências para a Natureza, para cada um de nós e para a sociedade nesse começar do novo século.

Seguir sendo o filho de Deus (teocentrismo) ou mesmo sendo o próprio Deus (antropocentrismo), talvez não seja uma saída, pois esses caminhos ao longo do tempo se fragilizaram ou, até mesmo, se esgotaram.

Não quero com isso negar a Ciência nem a Religião, quero somente dizer da necessidade de um novo reposicionamento do homo sapiens com relação à Natureza e à Cultura, e mesmo com relação à presença de seus Deuses em suas vidas e em todas as coisas que existem.

A cultura muda continuamente, mas em quais direções se dão essas mudanças? Quais os parâmetros ou paradigmas que orientam essas mudanças? Urge novos olhares, um novo (e antigo) sentir, outros parâmetros, não apenas ideológicos, mas sim profundamente marcados por uma nova sensibilidade frente à vida. Novas maneiras de sentir e perceber, uma nova visão da vida.

Visão Biocêntrica

Considero essa percepção uma visão da vida na qual o universo aparece como um fabuloso espaço de matéria visível e escura (fechado ou aberto não o sabemos), que se organiza (autopoiesis) no sentido da vida e que aumenta de complexidade através de sua própria diversidade e conectividade cósmicas. Evolui por si mesmo mediante azar e caos, e relações pouco conhecidas, principalmente entre suas forças fundamentais - gravitação, eletromagnetismo, força nuclear forte e força nuclear fraca - possibilitando, em última análise, a coerência universal - dança de determinações e indeterminações de fluxos que fazem um Universo altamente instável, evolutivo, irreversível e auto-organizado.

Se Deus não joga os dados ou se Deus joga os dados, isso não é o principal, pois as duas questões são faces da mesma moeda, da mesma complexidade. Concordo com Raul Terrén quando diz que "Deus joga os dados e sempre ganha".
A compreensão de um Universo que se organiza como sistema vivo mediante uma dança de caos e harmonia, pode parecer sem sentido ou mesmo ambiciosa, porém estudos recentes (voltados para uma Ciência da Vida) apontam na direção de uma visão mais profunda da vida, como algo mais complexo, sistêmico, auto-regulável e capaz de manifestar-se como um planeta vivo (Gaia).

A percepção da Terra ou do Universo, como algo vivo é antiga, vem dos Pré-Sumerianos. Ciência e Religião trataram o tema de maneira diferente depois de Galileu, porém na fase atual do conhecimento científico e do resgate da antiga religiosidade (Tradição), nos encontramos frente a profundas convergências entre elas acerca do macro e do microcosmo.

Hoje posso dizer que a noção de vida como algo de dimensão planetária ou cósmica está presente na Ciência, nas experiências místicas e na vida comum de qualquer pessoa sensível. Investigar e vivenciar essa presença da vida como estrutura-guia é o grande desafio que, inevitavelmente, nos deslocará para novos paradigmas da existência, a uma visão biocêntrica, a qual ultrapassa o panorama holístico (a tendência do todo se manifestar na diversidade, e esta, por conseguinte, revelar em sua potencialidade o todo) e se manifesta em um sentimento sagrado da Vida e do Universo, de todas as coisas existentes, sentimento este que tem como origem a vivência biocêntrica.

A compreensão de que isto é assim ultrapassa os limites das formas atuais de pensar e se aprofunda na vivência mesma do ser como corporeidade amorosa em sua viagem pelo mundo de si mesmo, no qual se revela a unicidade do espaço interior com o espaço exterior (Campbell, 1991). Tal clareza vem da epifania da vivência da identidade, do si-mesmo, do ato simples do viver.

Sentir-se Vivo

A visão biocêntrica não se confunde com a idéia de um Deus antropomórfico. Ela surge da vivência do sentir-se vivo, do sentir-se como parte da criação, como expressão da auto-poiesis cósmica.

O sentir-se vivo é o alicerce, é o que vincula, nutre, fortalece e revela o homo sapiens moderno. É a expressão natural, espontânea e cultural da vida como singularidade, como auto-poiesis particular da auto-poiesis cósmica. Do sentir-se vivo é que surge a percepção do si-mesmo, de um sentimento de vida, o qual vem da Biologia em direção a Psicologia, da transformação do animal em espírito enraizado, ou corporeidade vivida. É a mudança do selvagem em linguagem e sua volta a um lugar anterior e fonte de sua aparição em um mundo natural e espontâneo - a vida animal. Ao voltar à fonte animal, à Natureza, conecta-se a uma verdadeira conspiração pelo ato de viver. Por isso, o Mestre é a Natureza em nós.

Sinto com profundidade a conspiração pelo ato de viver, a existência de uma essência humana libertária, em algo vital que impulsiona o ser à vida e a algum lugar do infinito, cuja origem não está na consciência ou em qualquer forma de representação mental, e sim em nosso sentir, em nossa raiz animal e selvagem, mundo bruto e indiviso. Encontro aí a vida como possibilidade singular, potencialidade muitas vezes bloqueada, reprimida, negada, porém sempre presente. Só desaparece com a destruição do ser.

O ser humano surge dessa realidade bruta e indivisa, em um determinado instante, como uma onda no oceano, construindo-se na dança de caos e harmonia, em íntimos processos de fusão e diferenciação, e sendo capaz de sentir e perceber isso. Essa conexão profunda, que alimenta e constitui a natureza humana, é o húmus interior que nos faz vivos, instintivos, corporais e íntimos do Cosmos.

Dançar a Vida é Participar da Vida

É mergulhar em um paradoxo misterioso que se impõe frente ao conhecimento e ao próprio espírito humano, mas que tem profunda ressonância no coração. É permitir-se como um participante de uma grande dança a dançar o sagrado no cotidiano, na forma de conhecimento (Ciência), beleza (Arte), mistério (Mística) e vínculo (Amor). Dançar sendo plenamente o movimento das vísceras e dos nossos líquidos, o movimento geral do corpo no espaço desenhando no ar a forma da criação e da liberdade; dançar sendo o movimento desdobrado do movimento da vida, do Cosmos, desdobrado da dança das energias/partículas, da dança do pólen, das estrelas e dos animais, dança de determinações e incertezas, harmonia que germina o caos e este, como pai, germina a mãe que o gerou.

Dançar é tecer a vida, conspirar pelo ato de viver no leito natural da realidade, da cultura, na flecha do tempo, em uma estranha rota de caos e harmonia. Tecer a vida é, a cada dia, celebrar o ato criador, sentir-se brotando por dentro e por fora, perceber-se possuidor de um potencial de vida capaz de projetar-se em múltiplas possibilidades de realização e singularidade.

Ao falar de dançar a vida estou falando de participar da vida, de cultivá-la, de ser criatura e criador dessa dança cósmica revelada humana e dançada como história e cultura. Participar é estar aqui consigo mesmo, com a humanidade e com o Universo, sentindo o coração da Natureza pulsando em nossos próprios rios interiores, cujas nascentes e deságües estão no infinito. Participar da vida é nascer e renascer a cada instante, a cada dia, de um útero, pintando na tela da realidade a existência, bem antes de conhecê-la.

Participar é fazer do seu gesto um ato permanente de educar, que liberta da fusão as sementes que pulsam e anseiam naturalmente germinar. Somos sementes como as sementes, conectadas por uma rede de relações vitais, fios de natureza que nos conectam entre si e ao infinito, chamando-nos a dançar com autonomia e plenitude essa grande dança de comunicação e encontro. Nada pode deter esse chamado, a não ser a própria vida em sua força auto-organizadora e auto-transcendente.

Cada ser vivo é uma semente que vibra e se expande conduzida por uma trajetória instável de bilhões de anos. Não há na cultura algo tão complexo, incerto, neguentrópico e belo. Somos sementes como a própria semente, buscamos vínculo, nutrição e crescimento. Ao jardineiro cabe somente cuidar com amor, protegendo e nutrindo, pois os seus caminhos farão por conta própria, seguindo seus fios de natureza em direção a algum lugar da vida.

Por isso a dança, o gesto espontâneo e amoroso do jardineiro, a dança como ato de educar - ato de amor, uma dança amorosa de germinação e não um caminho estreito de valores e ideologias de um grupo dominante ou de uma só cultura.
Enfim, dançar a vida é construir um cotidiano de vínculo, um trabalho com sentido, com prazer, abrir-se ao encontro com as pessoas e lutar contra a opressão e exploração simplesmente por amar ao outro e à vida. É aceitar e estimular a expressão dos corpos-combativos, dos corpos-estrelas, dos corpos-apaixonados, em todas as idades, em casa e nas ruas. Dançar a vida é cultivar o amor, alicerce da cultura biocêntrica.

Conclusão

Para onde nos leva a dança da vida, o participar do mundo de hoje, da sociedade? Nos leva é certo a muitos caminhos, mas urge um principal - o da cultura biocêntrica, o de contribuir com uma sociedade amante, democrática e transcendente.

Sei que, para muita gente, isso é apenas mais uma das utopias, mas para outros o sentido da vida social está aí. Por isso seguem, caminhando e cantando a canção que diz que "somos todos iguais, braços dados ou não, nas escolas, nas ruas, campos e construções, caminhando e cantando e seguindo a canção" (Vandré, 1968).

Aos poucos, (é a nossa esperança e a nossa luta), um novo (e antigo) sentimento do humano e da vida poderá prevalecer sobre a cultura do individualismo e do consumismo, se tornando mais presentes nos corações e nas mentes das novas gerações. Este cultivo de sentimentos e de sentidos já começou, embora saibamos da existência de graves obstáculos à sua semeadura e colheita, tais como o antropocentrismo, a ideologia masculina, o individualismo, o autoritarismo, a xenofobia, o fascismo, o fetiche do capital, a exclusão social e o desamor.

O mundo histórico-social de hoje continua sendo, também, um mundo cheio de contrastes perversos (desigualdades sociais e dominação), apesar de contar com sofisticados sistemas de conhecimento, de direito, de produção, de transportes e de comunicação. Mesmo assim é um mundo vivo, real e próprio à humanização e à natureza, um terreno fértil para a construção de uma grande roda de culturas em meio à Natureza - uma roda de amor, de aceitação e de integração das diferenças.

Isso ainda é uma utopia, mas a integração entre as culturas é possível, desde que participemos amorosamente da tecitura de valores pró-vida por meio de uma educação biocêntrica. Este grande sonho já sonhado por muitos que já morreram e por muitos que estão lutando por ele, em todos os lugares do nosso querido Planeta Terra, nossa morada de hoje, um dia poderá ser realidade.

Não precisamos temer. É preciso coragem para perceber o nosso próprio brilho interior e querer construir uma cultura biocêntrica, um mundo com amor e prazer, portanto, vinculado à Vida.

Um sonho como esse nasce do olhar e do gesto generoso e simples de quem ama, do diálogo, de uma nova (e antiga) sensibilidade que permite captar a beleza da vida se fazendo em cada rosto, em cada ser vivo, em cada partícula do Universo.

É preciso não se dispersar, não perder de vista o sonho da Cultura Biocêntrica.

*Doutor em Psicologia pela Universidade de Barcelona Prof. de Psicologia da Universidade Federal do Ceará

CONSTRUINDO A DEMOCRACIA NAS ORGANIZAÇÕES

Texto de Ruy de A. Mattos
http://www.emco.com.br/artigos07.htm

A construção da democracia não pode ocorrer somente em nível das relações da sociedade com o Estado, seja através da interdependência e autonomia entre os três poderes da república, se por meio das eleições de nossos dirigentes e legisladores.

Uma sociedade será tão democrática quanto mais democráticas forem suas instituições e suas Organizações públicas e privadas.

É preciso coragem, despreendimento e persistência para construir os valores da democracia no âmbito das relações de trabalho que se estabelecem entre dirigentes, chefias e servidores nas Organizações públicas e entre patrões, gerentes e empregados, nas empresas privadas. E não basta a substituição do rótulo de "empregado" ou "servidor" para o de "'colaborador" como se tem feito, cinicamente, em muitas instituições, sem que isto de fato represente qualquer mudança nas relações de poder.

A democracia nas Organizações é construída sobre três pilares: a legitimidade, a participação e a simetria.

A legitimidade indica o nível de aceitação do líder por seus liderados, sendo assim, a base da autoridade, enquanto relação de poder que garante o cumprimento natural das decisões por aqueles que irão executá-las. Nas organizações, a legitimidade pode ser construída sobre o reconhecimento da competência gerencial. A eleição é a síntese desse reconhecimento, que se traduz no voto de confiança que os eleitores depositam no candidato, enquanto futuro gestor. Ainda pouco usada no âmbito organizacional, a eleição é a manifestação mais clara da legitimidade.

A participação é o fator que revela o grau de adesão voluntária dos liderados na construção e implementação das decisões organizacionais. É de sua natureza ser consciente, do contrário, teremos no lugar da participação, a execução obediente, desprovida de entusiasmo.

A participação é ação coletiva partilhada conscientemente. Quando ocorre, seus agentes assumem completa responsabilidade pelos êxitos, fracassos, sacrifícios e júbilos de cada empreitada.

Uma organização democraticamente dirigida tem na participação sua principal característica. Seus funcionários ou empregados fazem do trabalho um compromisso de cidadania com a realização do bem comum, que se expressa na satisfação da comunidade e no melhor atendimento ao cliente.

A simetria de poder entre interlocutores é o fator responsável pela construção de relações de mútuo respeito entre líderes e liderados. Quando a simetria é mantida em grau elevado, a liderança é fortalecida com a comunicação e o diálogo. Do contrário enfraquece-se em seus valores democráticos e passa a realçar seu lado autoritário e até mesmo despótico, ao atingir o extremo isolamento - "a solidão do gabinete". Desse modo, ao afastar-se psicologicamente de seus liderados, o líder mitifica-se e corre o risco de ser idolatrado ou repudiado por estes.

OS FATORES DETERMINANTES DA DEMOCRACIA NAS ORGANIZAÇÕES

Queremos destacar dois fatores que, ao nosso ver, determinam em grande parte o processo de democratização das Organizações: a capacidade de aprendizagem organizacional, que se expressa na produção e na disseminação do conhecimento; o desenho organizacional, que se manifesta nos regulamentos e normas de conduta, na designação de autoridade e responsabilidade e no modelo de comando e controle.

A Aprendizagem Organizacional

Quando se percebe que a qualidade do trabalho é diretamente proporcional ao nível de conhecimento produzido e disseminado entre as pessoas que o realizam, a aprendizagem organizacional aflora nas Organizações. As pessoas são estimuladas a romper barreiras construídas pela divisão hierárquica e burocrática do trabalho.

Na atual era do conhecimento em que vivemos, conhecer é cada vez mais sinônimo de poder. O grande desafio da construção da democracia é criar mecanismos gerenciais, culturais e estruturais que substituam a centralização do conhecimento nos altos escalões decisórios e o dissemine por toda a Organização, com ênfase na qualificação daqueles servidores ou empregados que se encontram nas fronteiras da Organização com seu meio-ambiente, atendendo face-a-face os clientes.

Ao criar redes de aprendizagem disseminadoras de conhecimentos, habilidades e atitudes, interligando os vários níveis e unidades, estaremos substituindo as ligações burras, repetitivas e disciplinadas do autoritarismo burocrático que manda e controla, por vínculos inteligentes, ricos de significado e de diálogo, típicos de relações de trabalho respaldadas na interdependência e no comprometimento mútuo, bases da democracia organizacional.

O Desenho Organizacional

O organograma é a representação gráfica da distribuição de poder na Organização. Sua forma mais tradicional é a pirâmide hierárquica que revela que as pessoas que desempenham as funções situadas em seu ápice concentram o poder e o conhecimento. À medida que descemos os degraus da hierarquia (comando sagrado, em grego) vemos o poder de diluindo e o conhecimento se transformando em memória repetitiva. Esta é a ideologia que sustenta as relações de trabalho numa organização típica da pré-revolução industrial e que vem persistindo até hoje, como fóssil vivo. No outro extremo, temos desenhos organizacionais que expressam e promovem a distribuição de poder e de conhecimento por todos os componentes organizacionais. A forma mais típica dessa nova estrutura organizacional é a Rede de Trabalho, constituída por Células de Negócios interligadas entre si por contratos de gestão e articuladas por um núcleo central.

Está clara a relação entre os modelos organizacionais e o regime de poder na Organização. Fazendo uma alegoria, podemos dizer que a estrutura constitui o esqueleto, o conjunto normativo representa a musculatura e as relações de trabalho revela o comportamento coletivo isto é, a cultura organizacional que, num círculo vicioso, reforça a estrutura e assim por diante.

A Pirâmide Hierárquica é o esqueleto ideal para criar e manter o autoritarismo combinado ao servilismo e fazer do controle e da disciplina os valores preponderantes da cultura organizacional. Por outro lado, a Rede de Trabalho, é a estrutura ideal à manifestação da democracia nas relações de trabalho, estimuladas pelo respeito mútuo, pelo comprometimento e pela construção coletiva dos destinos organizacionais.

A Democracia nas Organizações, apesar do tabu que ainda representa em nosso mundo tão racionalista e mecanicista, tem sido responsável pela migração de profissionais, em busca de melhores condições e oportunidades de desenvolvimento. Em recente reportagem, a Revista EXAME, ao tratar do tema de capa "Como Atrair Talentos", revela os casos de Alexandre Pombo e de Eduardo Cocozza: o primeiro responsabiliza "a estrutura monolítica da IBM que não permitia que eu exercesse a minha criatividade. Basicamente eu tinha que cumprir ordens e isso me frustrava"; o segundo, que mudou de empresa sem ganhar qualquer aumento salarial com isso, também condena a "estrutura rígida. Eu estava lá fazia seis anos e não via chance de mudanças a não ser a longo prazo."

Imaginem a situação de inúmeros outros empregados e servidores públicos que, ao se verem despreparados para um novo emprego, têm que se sujeitar ao ambiente autoritário, castrador da cidadania, que ainda caracteriza a grande maioria das Empresas e das Organizações Públicas de nosso país.

REFLEXÕES SOBRE A CIDADANIA

Texto de Ruy de A. Mattos
http://www.emco.com.br/artigos15.htm


I. INDIVÍDUO, PESSOA, CIDADÃO.

Todos somos indivíduos, a maioria pessoas e poucos cidadãos.

Não se assustem. Vamos diferenciar estes conceitos, que em nossas conversas misturamos e confundimos. E conceitos confusos tornam nossa visão da realidade também confusa.

O termo indivíduo vem do latim "indivisum", que quer dizer indivisível, algo inteiro em si mesmo.

Ora, deste modo somos similares a diversos outros seres, animais ou vegetais, considerados enquanto unidades. As árvores que compõem uma floresta, os bois que fazem parte de uma manada, os torcedores aglomerados num estádio de futebol vibrando por seu time, são todos indivíduos, isto é, unidades de um conjunto maior.

Nascemos indivíduos e aprendemos a ser pessoas. Portanto, nem todos os indivíduos tornam-se pessoas. O conceito de pessoa vem do grego "persona", uma máscara usada pelos atores do teatro grego para realçar os sentimentos e emoções de cada cena. Eles a colocavam em frente ao próprio rosto e falavam através dela, representando, portanto os "personagens" do drama. A psicologia, a partir deste termo, cunhou o conceito de "personalidade", isto é, o conjunto de comportamentos, atitudes, sentimentos, pensamentos que assumimos em nossas relações sociais, ao desempenharmos os mais diversos papéis na família, na comunidade. Ser pessoa significa assumir papéis sociais, que são aprendidos desde nossa infância até a nossa morte. Portanto ninguém é pessoa ao nascer.

A cidadania nasce quando saímos do casulo de nosso "personalismo" e assumimos conscientemente a construção de algo maior, o ser humano comunitário, que se manifesta como a cidade ou a pólis, onde vivemos e pela qual somos responsáveis. Neste sentido, os termos cidadão (de cidade) e político (de pólis) são sinônimos. Referem-se aos seres humanos que, além de serem indivíduos e pessoas, passam a cuidar e a construir a comunidade da qual são partes integrantes.

A liderança política nasce do desempenho desta responsabilidade social. A legitimidade do líder cidadão, ou líder político, resulta da aceitação de sua influência por parte daqueles que o seguem, numa relação dinâmica onde líderes e liderados tomam parte de uma missão maior que é o desenvolvimento auto-sustentado de sua comunidade, seja seu bairro, sua cidade, seu município, seu estado ou sua nação.


II. O "NÓS" E A CIDADANIA

Estarmos juntos é fundamental para construirmos o "nós", que é a base da coletividade. Este é o primeiro estágio da construção social, responsável pelo sentimento de "grupalidade", de acolhida e proteção social, resultante da fusão do "eu" no todo indiferenciado do "nós". É o que sente alguém, em seu anonimato, numa torcida, em que apenas usufrui o fato de ser um entre muitos semelhantes. Você acha que as pessoas, pelo fato de estarem em coletividade são, naturalmente, cidadãs? Certamente não. São pessoas que desfrutam de benefícios por pertencerem a uma coletividade, onde conseguem trabalho, alimentação, moradia, segurança, educação e diversos outros serviços públicos.

Precisamos diferenciar com maior clareza o fato de estarmos em coletividade, (simplesmente morarmos ou trabalharmos nesta coletividade), do sentimento de sermos parte da comunidade.

No primeiro caso, somos semelhantes a um hóspede de Hotel, onde passamos um certo tempo desfrutando (ou sofrendo) naquele lugar, um lugar "estrangeiro", isto é, estranho para nós, que por mais que sejamos bem tratados, nunca será nosso. Não nos sentimos enraizados naquela coletividade, nem comprometidos com o seu destino, com seu êxito ou fracasso.

A cidadania certamente pressupõe a existência do "nós" da coletividade, mas não se confunde com ele. Cria uma outra espécie de "nós", ao acrescentar os ingredientes da participação, do comprometimento e da parceria, transformando qualitativamente nosso estar em coletividade em ser comunidade, que resulta do compartilhamento sinérgico de recursos, pensamentos, valores, sentimentos, símbolos e ações humanas, fazendo emergir um novo valor na vida social - o de ser político ou ser cidadão.
Nesse sentido, podemos dizer que a comunidade é a expressão política da coletividade. Seguindo este raciocínio, enquanto na coletividade temos habitantes, contribuintes e consumidores, na comunidade temos cidadãos.

A cidadania, portanto, é produto de nosso comprometimento social e de nossa ação consciente e transformadora da realidade em que vivemos. Neste novo estágio gregário nos sentimos incomodados, agredidos, frustrados, quando alguma coisa de ruim acontece com algum de nós ou com o "nós", enquanto entidade única, seja nossa família, nosso bairro, nossa empresa, nossa cidade, nosso país. Do mesmo modo, quando nossa comunidade melhora em relação a algum indicador social ou econômico todos nos sentimos alegres, intimamente realizados, por estarmos identificados com este Todo comum. Esta identificação com a comunidade só ocorre quando somos cidadãos, participando, de fato, no processo de desenvolvimento auto-sustentável de nossa comunidade, seja na solução ou na prevenção de problemas, seja na busca de novas oportunidades de melhoria para todos.

A cidadania forma o sentimento de comunidade que, por sua vez, se alimenta da cidadania, criando num círculo virtuoso de participação e comprometimento social.
Com esta equação podemos criar a Nova Organização e a Nova Cidade, resultantes da prática da democracia, vivida em nosso dia-a-dia, em todas as relações humanas da qual fazemos parte.

Na Nova Cidade, as relações entre as três instâncias de nossa vida social: a Sociedade, o Estado e o Mercado são revistas, no sentido da plena realização humana em comunidade.
A Sociedade deixa de ser um conjunto polimorfo de indivíduos e pessoas, sofrendo e reclamando a insatisfação de seus interesses e necessidades, cuja responsabilidade delegou, nas eleições passadas, aos representantes do Estado.

O Estado deixa de ser uma instância burocrática inacessível, empreguista, incompetente e corrupta, fechada aos reclamos da sociedade e pautada tão-somente pelo jogo de interesses das elites.

O Mercado deixa de ser um ambiente de permuta de coisas e pessoas, de transações financeiras e mercantis apartadas da ética e dos interesses humanos mais legítimos, traduzidos nos indicadores de Qualidade de Vida Coletiva e no Índice de Desenvolvimento Humano da comunidade.

Nesta construção cidadã, como afirma o Senador Saturnino Braga: "Estado e Sociedade tendem a se confundir num processo de interligação crescente. Segundo essa mesma visão, as causações ou influências recíprocas vão se acentuando como numa espiral. A democratização se aprofunda e se torna cada vez mais viável. Os resultados positivos em termos de redução dos privilégios e de equalização de oportunidade espraiam-se pela sociedade, elevam o grau de conscientização e de politização, alargam as aspirações e os horizontes e, através da melhoria das condições materiais e culturais, aumenta a capacidade de participação popular e ressalta mais a importância dessa participação; abrem-se novas etapas e o ciclo positivo se amplia em novas perspectivas de realização democrática. Por etapas sucessivas, vão desaparecendo algumas das principais causas de alienação das massas: a falta de tempo e de dinheiro, as agruras da luta diária pela sobrevivência; a falta de cultura e o sentimento de Inferioridade ante as elites; a falta de motivação pelo sentimento de inocuidade."



Bibliografia - Organizações Biocêntricas

Mais indicações de livros (*):

BAUER, Ruben. Gestão da Mudança. Caos e Complexidade nas Organizações. São Paulo: Atlas. 1999.


BERGSON, Henri. A Evolução Criadora. Rio de Janeiro: Delta. 1964.


BOHM, David. A Totalidade e a Ordem Implicada. Uma nova percepção da realidade. São Paulo: Cultrix. 1980.


CAMPBELL, Joseph. Mitologia na Vida Moderna. Ensaios selecionados de Joseph Campbell. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos.2002.


CAPRA, Fritjof. O ponto de Mutação. A ciência, a Sociedade e a Cultura emergente. São Paulo: Cultrix. 1982.


CAPRA, Fritjof. A Teia da Vida. Uma nova compreensão científica dos sistemas vivos. São Paulo: Cultrix. 1996.

DAMASIO, Antonio R. O Erro de Descartes. Emoção, Razão e o Cérebro. São Paulo: Schwarcz. 1998.


DE MASI, Domenico (org.). A Emoção e a Regra. Os grupos criativos na Europa de 1850 a 1950. Rio de Janeiro: José Olympio. 1999. 7 ed.


DISKIN, Lia; MARTINELLI, Marilu; MIGLIORI, Regina de Fátima; ESPÍRITO SANTO, Rui Cezar do. Ética, Valores Humanos e Transformação. São Paulo: Peirópolis. 1998.


DURANT, Will. Nossa Herança Oriental. Rio de Janeiro: Record. 1963.


EINSTEIN, Albert. Como Vejo o Mundo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.
1981. 20 ed.


FERGUSON, Marilyn.
A Conspiração Aquariana. Transformações pessoais e sociais nos anos 80. Rio de Janeiro: Nova Era. 1997. 11 ed.


FREUD, Sigmund.
O futuro de uma Ilusão. O Mal-estar na Civilização e Outros Trabalhos. Rio de Janeiro: Imago. 1974.


GADOTTI, Moacir. Pedagogia da Terra. São Paulo: Peirópolis. 2000.


GAIARSA, José Angelo. Couraça Muscular do Caráter (Wilhelm Reich). São Paulo: Ágara.
5 ed. 1984


GENTILI, Pablo.
(org.) et alli. Pedagogia da Exclusão. Crítica ao neoliberalismo em educação. Petrópolis, RJ: Vozes. 1995. 4 ed.


GLEICK, James.
Caos. A criação de uma nova ciência. Rio de Janeiro: Campus. 1989.


GOSWAMI, Amit; REED, Richard E.; GOSWAMI, Maggie.
O Universo Autoconsciente. Como a Consciência cria o mundo material. Rio de Janeiro:Rosa dos Tempos. 1998. 2 ed.


GRINBERG, Luiz Paulo. Jung. O homen criativo. São Paulo: FTD. 1997.


GUEVARA, Che. Justicia Global – liberación y socialismo. La Habana: Ocean Press.2002.


HEISENBERG, Werner. A Parte e o Todo. Encontros e conversas sobre física, filosofia, religião e política. Rio de Janeiro: Contraponto. 1996.


HEISENBERG, Werner. Física e Filosofia. Brasília: Universidade de Brasília. 1999. 4 ed.

JAWORSKI, Joseph.
Sincronicidade. O caminho interior para a liderança. São Paulo: Best Seller. 2000.


KUENZER, Acacia. Pedagogia da Fábrica: as relações de produção e a educação do trabalhador. São Paulo: Cortez. 1989.


KUHN, Thomas S. A Estrutura das Revoluções Científicas. São Paulo: Perspectiva. 1962.


KURZ, Robert. O colapso da Modernização. Da derrocada do socialismo de caserna à crise da economia mundial. São Paulo: Paz e Terra. 1992.


MACHADO, Luiz. O Cérebro do Cérebro. As Bases da Inteligência Emocional e da Aprendizagem Acelerativa. Rio de Janeiro: Qualitymark.
2 ed. 1997.


MARX, Karl.
O Capital. Crítica da Economia Política. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. 1988. 12 ed.


MASLOW, Abraham W. Maslow no Gerenciamento. Rio de Janeiro: Qualitymark. 2000.


MATURANA, Humberto; VARELA, Francisco G. De Máquinas e Seres Vivos. Autopoiese - a Organização do Vivo. Porto Alegre: Artes Médicas.
1997. 3 ed.


MORIN, Edgar.
Ciência com Consciência. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. 1999.


NIETZCHE, Friedrich W. Assim Falava Zaratustra. São Paulo: Hemus. 1977.


NIETZCHE, Friedrich W. A Gaia Ciência. São Paulo: Hemus. 1976.

NIETZCHE, Friedrich W. A Genealogia da Moral. Lisboa: Guimarães e Cia. 1983.

NIETZCHE, Friedrich W. Origem da Tragédia. Lisboa: Guimarães e Cia. 1982.

NÓBREGA, Clemente. Em Busca da Empresa Quântica. Analogia entre o mundo da ciência e o mundo dos negócios. Rio de Janeiro: Ediouro. 1996.


OSTROWER, Fayga. Universos da Arte. Rio de Janeiro: Campus. 1983. 2 ed.


PADILHA, Valquíria. Tempo Livre e Capitalismo: um par imperfeito.
Campinas: Alínea. s.d.


PRIGOGINE, Ilya. O Fim das Certezas. Tempo, Caos e as Leis da Natureza. São Paulo: UNESP. 1996.


QUINN, Daniel. Ismael. Um romance da condição humana. São Paulo: BestSeller. 1992.


RUSSEL, Bertrand. História da Filosofia Ocidental. São Paulo: Nacional. 1977.


SAVIANE, Demerval. Educação e questões da atualidade. São Paulo: Cortez.
1991.


SCHIAVON, J. Perci.
A Lógica da Vida Desejante. Pteros . Curitiba: Criar. 2003


SCHIAVON, J. Perci. O Caminho do Campo Analítico. Curitiba: Travessa dos Editores. 2002.

SENGE, Peter M. A Quinta Disciplina. Arte e prática da organização que aprende.
São Paulo: Best Seller. 1999. 4 ed.


SHELDRAKE, Rupert.
O Renascimento da Natureza. O reflorescimento da ciência e de Deus. São Paulo: Cultrix. 1991.


SOUZA, José Crisóstomo (org.) et alli. O sujeito da Modernidade (Descartes, Rousseau, Kant, Hegel, Freud, Deleuze, Rorty). Revista argumento. Ano 1, nº 2. Asscom - UFBA.


SPINOZA, Baruch de. Ética. Demonstrada à Maneira dos Geômetras. São Paulo: Martin Claret. 2002.


SWIMME, Briam. O Universo é um Dragão Verde. Uma História Cósmica da Criação. São Paulo: Cultrix. 1984.


VARELA, Francisco J.; THOMPSON, Evan; ROSCH, Eleanor. A Mente Incorporada. Ciências Cognitivas e Experiência Humana. Porto Alegre: ARTMED. 1991.

WEIL, Pierre. Organizações e Tecnologias para o Terceiro Milênio. A Nova Cultura Organizacional Holística. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos. 1997.

WHEATLEY, Margaret J. Liderança e a Nova Ciência. Aprendendo organização com um universo ordenado. São Paulo: Cultrix. 1992. ZOHAR, Danah. O Ser Quântico. Uma visão revolucionária da natureza humana e da consciência baseada na nova física. São Paulo: Best Seller. 1990. 8 ed.

(*)
Bibliografia extraída do artigo: A REEDUCAÇÃO DO ADULTO NO TRABALHO. Autor: Paulo Roberto Neves Pereira. http://www.utp.br/mestradoemeducacao/vpedagogiaemdebate/pddprnp.htm

CRIANDO ORGANIZAÇÕES ECOLÓGICAS E COMPLEXAS














“Houve
uma grande escalada tecnológica sem elevação das idéias. Elevamos nossa posição sem elevar nossa visão. Percorremos os céus com as máquinas do inferno – seja qual for o sucesso do homem em organizações intermediárias, ele deixou de fazer uma organização do todo. Suas energias foram gastas em projetos interinos. Ele transformou seu mundo numa entidade geográfica sem uma filosofia que o enobreça, sem um plano que o conserve e sem uma organização que o mantenha.”
Norman Cousins

A reflexão acima do escritor americano Norman Cousins é de uma profundidade imensa e muito oportuna aos debates em torno da questão ambiental, que se tornaram prioridade na sociedade contemporânea. Daí surgem alguns questionamentos: Mas o que é que as organizações (empresas e instituições) têm a ver com o aquecimento global? Elas também provocam as mudanças climáticas? Será que uma organização pode funcionar conforme os princípios que regem a natureza? Será que podemos falar em organizações ecológicas e complexas? Vou tentar responder, na medida do possível, em bases científicas.





















A questão ecológica tornou-se tão relevante, dada a sua gravidade, que este campo de estudo acabou se diversificando. Comporta várias dimensões. Uma é a Ecologia Organizacional, que entende as organizações como entidades auto-organizantes e em contínua evolução. Outra é a Ecologia Profunda, de Fritjof Capra, que vê o homem como parte da natureza, inserido em seus processos cíclicos. Também há a Ecologia de Redes, que considera o acoplamento e a interdependência entre os diversos níveis de organização. A proposta aqui é investigar as organizações sob estes três prismas.

Depois da família, as organizações - representadas pelas empresas e instituições públicas - são consideradas as instâncias essenciais ao saudável funcionamento da sociedade. E, atualmente, o sentimento percebido é o de que as nossas organizações estão em profunda crise e não conseguem mais atender aos propósitos pelos quais foram criadas. Usando o conceito de acoplamento estrutural do renomado biólogo chileno Humberto Maturana, diria que houve um desacoplamento: as organizações, enquanto sistema, perderam a conexão com o mundo externo, ou seja, estagnaram (ou evoluíram a passos muito lentos) e não acompanharam o supersistema do qual fazem parte, a sociedade, que mudou - suas demandas cresceram em complexidade e diversidade. Não conseguimos atender estas novas demandas porque ainda predomina o modelo mental linear nas empresas e instituições, que hoje se manifesta em suas formas mais virulentas: autoritarismo, corrupção, concentração de riqueza, degradação ambiental etc. Portanto, não houve a necessária aprendizagem para introdução, em nossas organizações, de novos modelos mentais (mudança cultural) e de técnicas de gestão desta era pós-industrial ou era do conhecimento. Por isso falta coerência nas nossas práticas administrativas frente às ameaças e oportunidades do difícil contexto atual.

O objetivo último das organizações, sobretudo as do setor público (onde a lógica de mercado não constitui a principal base de funcionamento), é a geração do bem-estar da vida humana em sociedade. Logo, podemos dizer que o grande negócio de qualquer organização é, em última instância, contribuir efetivamente para a consolidação de uma sociedade democrática e justa em que todos os seres humanos possam estar incluídos no sistema produtivo e, assim, viver dignamente em comunidade. Não obstante o avanço tecnológico alcançado pela humanidade, esta tão desejada e esperada justiça social – aquela que gera cidadãos de fato – parece distanciar-se cada vez mais. E isto afeta o desenvolvimento social que, por sua vez, afeta o cuidado que se deve ter com o meio ambiente e este retroage sobre toda a cadeia - é a lógica da teia da vida. Ou seja, sob esta perspectiva, será que as nossas organizações estão sendo ecologicamente corretas? Se continuarem atuando na linearidade, a resposta será não. Aliás, estão na contramão da "nova ciência" que vê o mundo em sua totalidade complexa.

Mas, nem tudo está perdido. Podemos delinear alternativas reais para melhorarmos o mundo das organizações. O ato de trabalhar em coletividade na sociedade complexa em que vivemos requer um pensar e um agir complexo. É o que a ciência vem dizendo nas últimas décadas: tudo no universo é complexidade. Logo, para criarmos organizações complexas e ecológicas, sugiro três iniciativas ecologicamente corretas, que se retroalimentam e se complementam:

1 – Ecologia Organizacional: permitir o alvorecer da auto-organização – DEMOCRATIZAR o espaço micropolítico que são as organizações, sobretudo as instituições públicas. Como sugere o psicólogo Ruy Mattos: “sendo a sociedade um supersistema constituído por instituições, organizações e grupos sociais, como podemos esperar a democratização do todo sem a democratização de suas partes? Como poderá conviver um governo democrático em sua expressão macro, com um infindável número de feudos organizacionais, com seus "baronatos", "principados" dificultando o exercício da prática e alimentando, no interior de suas fronteiras, a aristocracia e o compadrio como critérios de distribuição do poder administrativo?” Aqui se insere o conceito de democracia organizacional que faz surgir, por meio de processos dialógicos, lideranças facilitadoras, integrando pessoas e gerando sinergia, cooperação, motivação e criatividade;

2 – Ecologia Profunda: criar oportunidades de APRENDIZAGEM. Trata-se da educação continuada que, partindo do pressuposto de que o homem é co-criador de sua realidade ao expressar seus potenciais, permite o autoconhecimento e o autodesenvolvimento do ser humano, melhorando suas percepções de mundo e tornando-o mais integrado consigo mesmo, com o outro e com o seu ambiente (incluindo a natureza), gerando assim uma cultura biocêntrica, voltada para a valorização da vida. Desta forma, abre-se espaço para começarmos a fazer o novo e sairmos da repetição e do isolamento - características do homem racional e mecânico da era industrial. Esta iniciativa permite nos sentirmos parte de algo maior e mais significativo que é o trabalho com espírito de coletividade que deve ser realizado dentro das organizações, nos aproximando mais dos nossos semelhantes e alimentando uma ética da alteridade;

3 – Ecologia de Redes: como diz o físico Fritjof Capra, “o padrão da vida, é um padrão de redes, capaz de auto-organização”. As estruturas organizacionais devem quebrar mais as hierarquias que enrijecem o seu funcionamento e procurar uma melhor configuração por meio de ricas redes de RELACIONAMENTOS, interna e externamente. Logo, as organizações devem buscar, cada vez mais, aproximar-se e relacionar-se entre si e com a comunidade na qual se encontra inserida. Neste caso, estarão dando sua parcela de contribuição para a criação de uma rede de cidadania e convivencialidade no tecido social, harmonizando-o com o meio ambiente.

Uma mudança dessa magnitude não é tarefa das mais fáceis, reconheço, é complexa, mas possível (já existem muitos exemplos – o terceiro setor, que vem preenchendo um vácuo deixado pelo Estado, é o maior deles), desde que nós, sobretudo dirigentes empresariais e gestores públicos, esvaziemos nossa mente para entrada de novas idéias, valores e crenças e, principalmente, coloquemos sob controle nossa dimensão egóica, aquilo que a cultura patriarcal transformou em artigo de primeira necessidade. Como alerta o psicoterapeuta Humberto Mariotti, “o ego não tem a inocência necessária para aprender com o fluxo da vida”. Parece ser esta a mensagem que Gaia está tentando passar para nós, os seus inquilinos.

É, portanto, uma questão de escolha (liberdade): quem está disposto a mudar a si para mudar sua organização e, assim, mudar o mundo?

Por fim, é importante salientar que a intenção deste ensaio não é afirmar que esta percepção individual, portanto limitada, seja a correta, pois a certeza é cega - quanto mais se tem, menos se vê. A intenção é melhorar nossa capacidade de autocrítica e trazer subsídios para buscarmos juntos uma alternativa que satisfaça a todos – organizações, sociedade e o nosso ecossistema.

“Como instâncias fundamentais das sociedades atuais, as empresas e instituições, em função das quais tudo o mais se encontra organizado, são fóruns extremamente privilegiados para discussão, aprofundamento, experimentação, implantação e disseminação dos novos paradigmas da complexidade. Estamos conscientes de que mudá-las é mudar o âmago das sociedades, é mudar a forma como cada um de nós se coloca diante da vida.”
Ruben Bauer

*******************