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quinta-feira, 14 de maio de 2009

SER COERENTE COM O PENSAMENTO BIOCÊNTRICO

O estilo de vida, cultura, visão de mundo, o ser-estar-sentir-pensar-agir que atualmente vem se desenvolvendo com mais substância, coerência em favor da vida como um todo integraliza-se a partir do princípio biocêntrico, ponto de partida para a formação do pensamento ou paradigma biocêntrico.

Este novo modo de viver forçosamente envolve mudanças de paradigmas e, consequentemente, idéias, falas e comportamentos não necessariamente nesta ordem. E as palavras que usamos são um bom balizador de nossas idéias. Por exemplo: quem é pacífico sente enorme dificuldade e até constrangimento em usar palavras com sentido bélico; pessoas com pensamento racional-cartesiano tem dificuldades imensas com vocabulário místico ou religioso, e assim por diante. O contrário, obviamente, também vale.

As palavras que usamos no nosso dia-a-dia falam muito do nosso modo de ser e estar no mundo e nós nem nos damos conta:
- uma linguagem bélica, agressiva, violenta, na qual a vida é uma luta constante, inclui mais presentemente palavras e frases (discussões de sentido à parte), como público-alvo, vou matar ele de beijos, atirei no que vi e acertei no que não vi, atirei o pau no gato, mato um leão por dia, através de (passou por dentro), a conquista do sonho, estou derrotado, lutar pela vida, a vitória de atingir o sucesso, a predominância do mais forte, competição no mercado de trabalho, meu colega-adversário, etc.;
- uma linguagem pacífica conta com expressões e palavras que falam de ponderação, harmonia, entendimento, paz, inclusão, solidariedade, fraternidade, justiça, etc.;
- na linguagem teocêntrica encontra-se muito expressões do tipo: Deus é quem tudo provê, Deus foi quem quis assim, tudo acontece do jeito que Deus quer...;
- a linguagem linear-cartesiana usa muito essas expressões: fundamental (a partir da fundação de onde se ergue linearmente todo o resto), meu intestino funciona como um relógio (hahaha falta só o tic tac), o nível daquela pessoa (patamar, degrau), subir na vida (cadê a ladeira ou escada?), oficina (workshop - um lugar de se consertar algo, pessoas?)
- a linguagem econômica: recursos humanos (desde quando ser humano é ser recurso?), capital humano (piorou), administrar pessoas (pessoas são inadministráveis) ...;

- na linguagem apropriada ao pensamento biocêntrico as palavras coerentes são: universo como um sistema vivo, valorização da vida, natureza, planeta, valores humanos, ética, coerência, afetividade, qualidade de vida (para todos os seres viventes e não apenas os humanos), vivência pedagógica, complexidade, interação, processo, possibilidades, integração, grau, incentivo, cooperação, compartilhar, ser humano, infinitude, caos-ordem, relação, relatividade, contexto, instabilidade, autonomia, respeito, identidade relacional, encontro, diálogo, desenvolvimento complexo, sentir-pensar-agir, interconexão, interatividade, eu-tu-nós-outro(s)-tudo, micro inserido no macro e vice-versa, sinergia, associatividade, círculo de cultura, apreender, ensinante-educando, vivência ontológica, dinamização de potenciais, auto-regulação, auto-poiese, grupos-times, sustentabilidade, comunidade, multidimensional, energia, fluir, dinâmico, liderança compartilhada, consenso, participativo-vivencial, reflexão dialógica, palavras geradoras, vinculação, diversidade, criatividade, geratriz, teórico-dialógico-reflexivo-vivencial, saúde, saúde comunitária, interconexão de conceitos-teorias-práticas-vivências, essencial, por meio de, mediar, facilitar, fractal, corporeidade, promoção de mudanças culturais, desenvolvimento de habilidades e competências, laboratório temático, consultoria de terceiro partido, equidade, equanimidade, multicausalidade, etc... Cada uma dessas palavras têm um sentido tão amplo e profundo que caberia uma dissertação para cada uma delas.

Considerei necessário fazer toda essa preleção por causa do que desejo expor a seguir:

Em geral, quando recebo convites e/ou informações sobre cursos, seminários, vivências, me sinto incomodada com a questão da falta de práticas inclusivas por parte dos realizadores que, na minha opinião, está longe do aceitável. Incomoda-me mais ainda, quando são eventos realizados por pessoas comprometidas (pelo menos demonstram ser) com a proposta biocêntrica.

Creio que a inclusão não venha sendo tão fácil de acontecer por ser necessário um esforço a mais de trabalho que foge da rotina a que se está acostumado. Desenvolver esse olhar inclusivo é essencial para se mudar, ou pelo menos, se adaptar as metodologias existentes para que haja inclusão.

Sugiro, por exemplo, que os realizadores dos eventos procurem pessoas interessadas que tenham os conhecimentos necessários exigidos nos temas em geral veiculados nos eventos pela empresa organizadora, ou pelo grupo, ou mesmo pelo profissional, mas que não têm condições de participar por questões financeiras (ser pobre mesmo) de modo a que integrem listas com seus nomes e contatos para serem convidadas conforme forem ocorrendo os eventos. Fica a critério do organizador, qual percentual sobre o total de pagantes. Essa é uma medida simples, que não vai empobrecer o realizador, inclui e integra socialmente pessoas naturalmente excluídas e enriquece o grupo com a diversidade. Só para esclarecer, não me refiro aqui àquelas pessoas que moram num bom apartamento ou casa e que estão temporariamente desempregadas, ou sem recursos financeiros por um motivo ou outro. Essas em geral são descoladas e sabem chegar na organização do evento que têm interesse, colocar sua situação e obter bons descontos, até mesmo livre.

Os organizadores poderiam também buscar a participação dos deficientes físicos, excluídos naturalmente pela falta de adaptação às suas deficiências.

Para deixar registrado, incomoda-me também os altos preços cobrados por alguns palestrantes e detentores de direitos autorais, etc, pessoas essas ligadas à difusão do princípio biocêntrico de que modo seja. É incoerência!

Tenho certeza que criatividade é o que não falta. O que falta é decisão para mudar, talvez falte força de vontade, talvez falte mesmo coerência com a fala. Não importa. O que importa é atitude.

Quem tiver experiências diversas com a inclusão e quiser compartilhar, poste aqui um comentário ou mande-me um e-mail.

Sabemos ser até relativamente fácil apreender novas idéias e suas palavras embutidas. Mas, mudar comportamento exige consciência, coerência e uma boa dose de esforço.

Um abraço aos amigos leitores.

Irene Nousiainen
Em 14/05/2009

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domingo, 9 de setembro de 2007

O PENSAMENTO COMPLEXO - TEORIAS DA COMPLEXIDADE

O pensamento complexo, ou paradigma da complexidade, tem sua essência em obras de vários autores, cujos trabalhos vêm tendo cada vez maiores aplicações na biologia, sociologia, antropologia social e nas propostas de desenvolvimento sustentado.

Segundo MARIOTTI (2000), uma de suas principais linhas é a biologia da cognição, desenvolvida por Humberto Maturana, a qual sustenta que a realidade é percebida por um dado indivíduo segundo a estrutura (a configuração biopsicossocial) de seu organismo num dado momento. Essa estrutura muda constantemente, de acordo com a interação do organismo com o meio.

Os pensadores sistêmicos reconheciam a existência de diferentes níveis de complexidade sujeitos, cada um, a diferentes tipos de leis, ou seja, em cada nível de complexidade os fenômenos observados exibem propriedades não existentes no nível inferior, como foi exemplificado por Capra (2003: 40): “o sabor do açúcar não está presente nos átomos de carbono, hidrogênio e de oxigênio que o constituem”. Essas propriedades foram, mais tarde, chamadas de propriedades emergentes.

O surgimento da teoria quântica, no início do século XX, provocou uma revolução no pensamento moderno, pois obrigou a ciência a repensar sua concepção reducionista analítica, ante o seguinte fato:

...os objetos materiais sólidos da física clássica se dissolvem, no nível subatômico, em padrões de probabilidade semelhantes a ondas. Além disso, esses padrões não representam probabilidades de coisas, mas sim, probabilidades de interconexões (Capra, 2003: 41).

Os estudos realizados por esse autor demonstraram que as partículas subatômicas não são “coisas” e somente podem ser entendidas como interconexões entre coisas, que, por sua vez, interconectam-se com outras coisas, e assim por diante.

A observação dessas interconexões mostram uma complexa teia de relações entre as várias partes de um todo unificado, “como um complicado tecido de eventos, no qual conexões de diferentes tipos se alternam, se sobrepõem ou se combinam e, por meio disso, determinam a textura do todo” (Capra apud Capra, 2003: 42).

Também não havia àquela época técnicas matemáticas não-lineares capazes de descrever a emergência dos padrões de organização característicos da vida e de lidar com a complexidade dos sistemas vivos, o que somente veio a tornar-se possível com o desenvolvimento de poderosos computadores.

Segundo Mariotti (2000), a limitação do pensamento sistêmico se deve ao fato de que este pode proporcionar bons resultados, sob a ótica mecânico-produtivista, mas não é suficiente para lidar com a complexidade dos sistemas naturais, especialmente com os seres humanos. Sua eficácia e potencialidades são substancialmente diminuídas quando separado da idéia de complexidade.

Ainda para este autor, o pensamento sistêmico é apenas um dos operadores cognitivos do pensamento complexo:

O pensamento sistêmico é um instrumento valioso para a compreensão da complexidade do mundo natural. Porém, quando aplicado de modo mecânico, como simples ferramenta (como se vem fazendo nos dias atuais, principalmente nos EUA, no mundo das empresas), proporciona resultados meramente operacionais, que não são suficientes para compreender e abranger a totalidade do cotidiano das pessoas (Mariotti, 2000: 3).

Importantes contribuições para a evolução do pensamento científico - do sistêmico para o complexo – originaram-se em estudos da lógica da mente com base na cibernética e na teoria da informação. Estes estudos levaram, a partir de meados do século passado, à concepção do ser humano como um processador de informações e, ainda, que o conhecimento não é, nessa lógica, contextualizado e nem concebe valor, que são dados abstratos.

Esse paradigma para a tecnologia, ainda é encontrado nos dias de hoje, em que a mesma prevalece sobre o ser humano e não no sentido de que deve ser um meio a serviço da inclusão e da melhoria da qualidade de vida do ser humano.

É importante ressaltar que informações não criam idéias. A mente humana pensa com idéias e não com informações. As idéias é que criam informações. Idéias, portanto, são padrões integrativos que derivam da experiência e não da informação (Capra, 2003).

Argumentos críticos foram apresentados contra o paradigma tecnológico, instalado com o advento da informática no século passado, no sentido de que não existem regras para o cérebro, não há um processador lógico central e as informações não estão armazenadas localmente como no computador.

Ao contrário, os estudos apontam para uma ampla complexidade de interações que se estende não somente pelo cérebro, mas por todo o organismo e do organismo com os outros/com o meio, com uma característica preponderante de auto-organização não encontrada em computadores.

Por outro lado, todos esses estudos resultaram no desenvolvimento de computadores com uma capacidade de processamento cada vez mais potente que possibilitaram os cálculos matemáticos tão necessários à ciência da complexidade. Compreende-se, então, que a tecnologia deve ser usada a serviço da melhoria da qualidade de vida de todos os seres viventes.

O entendimento de padrão de organização – uma configuração de relações características de um sistema em particular e essencial para a compreensão da vida, sintetiza duas abordagens diferentes: o estudo da substância ou estrutura, no qual as coisas são medidas e pesadas e o estudo da forma ou padrão que não podem ser medidos nem pesados, mas que podem ser mapeadas as configurações de relações, os padrões de rede.

Ao padrão de rede está intimamente ligado o conceito de realimentação, que permite às redes desenvolveram a capacidade de regularem-se a si mesmas. Assim, uma comunidade pode corrigir seus erros, auto-regular-se e auto-organizar-se.

No meio científico, a primeira e mais influente descrição de um sistema auto-organizado, como dito anteriormente, foi desenvolvida por Ilya Prigogine [1] com a teoria das Estruturas Dissipativas [2]. Segundo a mesma, estas não só se mantêm afastadas do equilíbrio como podem até mesmo evoluir, e que, mediante instabilidades podem se transformar em novas estruturas de complexidade crescente, denotando uma fonte de nova ordem e complexidade.

Capra assim expressa as características da auto-organização:

...é a emergência espontânea de novas estruturas e de novas formas de comportamento em sistemas abertos, afastados do equilíbrio, caracterizados por laços de realimentação internos e descritos matematicamente por meio de equações não-lineares (2003: 80).

No pensamento desse importante estudioso da complexidade, a auto-organização emergiu como a concepção central da visão sistêmica da vida e está estreitamente ligada a redes, assim como as concepções de realimentação (Capra, 2003).

As idéias-chave do modelo de auto-organização [3] foram desenvolvidas em muitos sistemas diferentes nas décadas de 70 e 80 do séc. XX, chegando ao entendimento de que “os resultantes modelos de sistemas auto-organizadores compartilham certas características chaves, que são os principais ingredientes da emergente teoria unificada dos sistemas vivos” (Capra, 2003: 79).

A idéia de autopoiese surgiu a partir da expansão da idéia de homeostase seguindo em duas direções importantes: primeiro, que a autopoiese transforma todas as referências da homeostase em internas ao sistema; e, segunda, que ela afirma ou produz a identidade do sistema, ou seja, o sistema produz a si próprio, dessa forma, produz a sua identidade distinguindo-se a si mesmo do seu ambiente (RAMOS, 2004).

O conceito de autopoiese foi desenvolvido por Humberto Maturana [4] e Francisco Varela [5], a partir de estudos sobre os sistemas vivos como sistemas cognitivos válidos para todos os organismos, com ou sem sistema nervoso, a partir de pesquisas sobre a autonomia nos processos vitais.

Estes cientistas concluíram que, os seres vivos caracterizam-se pela capacidade de “produzir a si mesmos” continuamente, de refazer-se, resultando que a vida como um processo é um processo de cognição. Em 1974, juntamente com Ricardo Uribe, os mesmos desenvolveram um modelo matemático correspondente para a célula viva – sistema autopoiético mais simples.

A autopoiese revela uma autonomia biológica na qual as células parecem “saber” como se comportar no tempo e no espaço, de modo a gerar os diversos órgãos e desenvolver as funções vitais, permitindo organizarem-se, sendo então, uma das características essenciais da vida.

Este conceito refere-se essencialmente a rede de processos de produção, nos quais a função de cada componente consiste em participar da produção ou da transformação de outros componentes da mesma, resultando em que toda ela “produz a si mesma” continuamente. É um padrão geral de organização comum a todos os sistemas vivos, qualquer que seja a natureza dos seus componentes.

Os estudos de Maturana também levaram à concepção de que a realidade é criada por um dado indivíduo, segundo a estrutura (a configuração biopsicossocial) de seu organismo num dado momento. Essa estrutura muda constantemente, de acordo com a interação do organismo com o meio.

Humberto Maturana e Francisco Varela conseguiram estabelecer uma importante distinção entre “organização” e “estrutura”, que muito contribuiu para clarificar a questão dentro de uma concepção sistêmica e rompendo com a visão mecanicista:

A organização de um sistema vivo é o conjunto de relações entre os seus componentes que caracteriza o sistema como pertencendo a uma determinada classe (tal como uma bactéria, um girassol, um gato ou um cérebro humano) (Capra, 2003: 89).

Outras teorias importantes foram sendo desenvolvidas dentro da ótica da complexidade, como as a seguir apresentadas (Briggs, 2000; Capra, 2003; Moraes, 2003):

- Teoria do laser: num laser certas condições especiais se combinam para produzir uma transição da luz de lâmpada normal, que consiste numa mistura não-ordenada de ondas luminosas de diferentes freqüências e diferentes fases, para a luz de laser ordenada, que consiste num único trem de ondas monocromático e contínuo.


- Teoria dos Hiperciclos
: com tempo suficiente e um fluxo contínuo de energia, os ciclos catalíticos tendem a se encadear para formar laços fechados ou hiperciclos, nos quais os catalisadores produzidos em um ciclo atuam como catalisadores [6] no ciclo subseqüente.

- Teoria Gaia: estudos realizados por James Lovelock sobre auto-organização o levaram, juntamente com a microbiologista Lynn Margulis, ao desenvolvimento da idéia do planeta Terra (Gaia – deusa grega da Terra) como um grande sistema vivo, auto-organizador – um sistema aberto, afastado do equilíbrio, caracterizado por um fluxo constante de energia e de matéria, cujos laços de realimentação ligam conjuntamente sistemas vivos e não-vivos – um todo integrado. A hipótese Gaia é assim enunciada por Margulis:

...a superfície da Terra, que sempre temos considerado o meio ambiente da vida, é na verdade parte da vida. A manta de ar – a troposfera – deveria ser considerada um sistema circulatório, produzido e sustentado pela vida....Quando os cientistas nos dizem que a vida se adapta a um meio ambiente essencialmente passivo de química, física e rochas, eles perpetuam uma visão seriamente distorcida. A vida, efetivamente, fabrica e modela e muda o meio ambiente ao qual se adapta. Em seguida, esse 'meio ambiente' realimenta a vida que está mudando e atuando e crescendo nele. Há interações cíclicas constantes (apud Capra, 2003: 94).

O resultado de versões desenvolvidas por Lovelock bem mais sofisticadas e com sistemas altamente complexos sobre o modelo matemático informatizado, “Mundo das Margaridas”, que representa um sistema Gaia, de modo bem simplificado e desenvolvido por ele mesmo demonstram que as pequenas flutuações de temperatura presentes no modelo simplificado se nivelavam e que a auto-regulação se tornava progressivamente mais estável à medida que a complexidade do modelo aumentava; comprovou, também, que a auto-regulação do sistema vivo é notavelmente elástica sob catástrofes.


- Teoria dos Sistemas Dinâmicos ou matemática da complexidade: utiliza a matemática de relações e de padrões, sendo mais qualitativa que quantitativa, envolvendo mais padrão que substância, relações que objetos. O uso do computador possibilitou aos matemáticos responderem questões complexas e imprimir soluções sob a forma de curvas num gráfico. A matemática da complexidade tornou possível trazer ordem ao caos (as Teorias do Caos e dos Fractais são ramos da Teoria dos Sistemas Dinâmicos).

- Atrator de Ueda: estudo realizado pelo matemático japonês Yoshisuke Ueda no final da década de 60 do século XX, a partir de observações sobre o “pêndulo caótico”, cujo balanço desse oscilador caótico é único, portanto, o sistema nunca se repete, mas os pontos no espaço de fase formam um padrão complexo e altamente organizado – um atrator estranho que levou o nome de Ueda. O atrator de Ueda é uma trajetória num espaço de fase bidimensional que gera padrões que quase se repetem, mas não totalmente. Outra característica importante desse tipo de atrator é que ele tende a ser de dimensionalidade muito baixa, mesmo num espaço de fase com um elevado número de dimensões, de onde se conclui que o comportamento caótico, no novo sentido científico do termo, é muito diferente de movimento aleatório, errático – o comportamento caótico é determinista e padronizado.

- Efeito borboleta: descoberto no início da década de 1960 pelo meteorologista Edward Lorenz que, a partir de estudos de condições meteorológicas, observou que os sistemas caóticos são caracterizados por serem extremamente sensíveis às condições iniciais – mudanças minúsculas no estado inicial do sistema, levando, ao longo do tempo, a conseqüências em grande escala, ou seja, a partir de dois pontos de partida praticamente idênticos, desenvolver-se-iam duas trajetórias por caminhos completamente diferentes, tornando impossível qualquer previsão a longo prazo, embora isso não queira dizer que a teoria do caos não é capaz de quaisquer previsões. As previsões precisas realizadas a partir da teoria do caos referem-se às características qualitativas do comportamento do sistema e não dos valores precisos de suas variáveis num determinado instante. Todos esses estudos marcaram o início da teoria do caos, sendo, então, o atrator de Lorenz o atrator estranho mais estudado a partir de então.

- Teoria do Caos: ramo da Teoria dos Sistemas Dinâmicos que trata dos processos não-lineares, altamente complexos e imprevisíveis. Em sistemas não-lineares, pequenas mudanças podem ter efeitos dramáticos, pois podem ser amplificadas repetidamente por meio de realimentação de auto-reforço, cujos processos constituem a essência das instabilidades e da súbita emergência de novas formas de ordem, típicas da auto-organização. Sua elaboração foi possível a partir da matemática da Teoria dos Sistemas Dinâmicos cujos fundamentos foram estabelecidos por Jules Henri Poincaré [7], e foi, também, o cientista que retomou o imaginário visual para a matemática. Poincaré também percebeu que, ao se tentar representar as infinitas interseções estabelecidas por duas curvas, essas interseções formam uma espécie de rede infinitamente apertada [8]:

...nenhuma das duas curvas pode jamais cruzar consigo mesma, mas deve dobrar de volta sobre si mesma de uma maneira bastante complexa a fim de cruzar infinitas vezes os elos da teia. Fica-se perplexo diante da complexidade dessa figura, que eu nem mesmo tento desenhar (Capra, 2003, 110).

- Teoria das Catástrofes: foi desenvolvida a partir de estudos sobre os atratores estranhos e seu comportamento ante pequenas alterações. Em sistemas não-lineares, pequenas mudanças em certos parâmetros podem produzir mudanças dramáticas nas características essenciais do retrato de fase: atratores podem desaparecer ou converter-se uns nos outros, ou novos atratores podem aparecer subitamente, sendo os pontos críticos de instabilidade denominados de “pontos de bifurcação”, em que o sistema se ramifica em nova direção. Um de seus estudiosos, o matemático francês René Thom, na década de 1970, utilizou o termo “catástrofes” em vez de “bifurcações”, e foi quem identificou sete catástrofes elementares (hoje, os matemáticos já estudaram mais de vinte).

- Teoria dos Fractais: inventada independentemente da teoria do caos e sendo também um ramo da Teoria dos Sistemas Dinâmicos, a teoria dos fractais utilizou a geometria fractal para descrever em “escala fina” a estrutura dos atratores caóticos. Desenvolvida pelo matemático francês Benoît Mandelbrot, na década de 60 do século passado, a partir da compreensão de que todas essas formas geométricas tinham algumas características comuns bastante notáveis e que a geometria fractal poderia descrever e permitir a análise da complexidade das formas irregulares no mundo natural que nos cerca, como as nuvens, pois fractais são objetos e estruturas de dimensão espacial fracionária, com propriedades de extensão infinita dos limites, permeabilidade dos limites e auto-similaridade. A propriedade mais notável das formas fractais é que seus padrões característicos são repetidamente encontrados em escala descendente, de modo que suas partes, em qualquer escala, são, na forma, semelhantes ao todo (Tôrres, 2001) – sendo os atratores estranhos extraordinários exemplos de fractais. Dentro da ótica da complexidade, embora seja impossível calcular o comprimento ou a área de uma forma fractal, devido à infinitude das dimensões, conforme a infinitude de escalas, pode-se ainda definir o grau de “denteamento” de uma maneira qualitativa. A geometria fractal possibilitou a Mandelbrot descobrir uma estrutura matemática altamente complexa, conhecida como Conjunto de Mandelbrot que, para sua compreensão são necessários importantes conceitos matemáticos, incluindo os números complexos.

Todas essas teorias contribuíram para a compreensão da vida como redes aninhadas dentro de redes, sem hierarquização que formam os sistemas vivos – a complexidade da vida não restrita à estrutura, mas incluindo-se a forma e o padrão relacional das partes – um todo de partes integradas. A qualidade, então, ressurgiu na ciência com uma importância essencial, integrando a quantidade, objetividade e subjetividade, estrutura e padrão e influindo nas diversas dimensões de atuação do ser humano.

O paradigma da complexidade nos proporciona uma nova perspectiva sobre as chamadas hierarquias da natureza, como explica Capra:

Desde que os sistemas vivos, em todos os níveis, são redes, devemos visualizar a teia da vida como sistemas vivos (redes) interagindo à maneira de rede com outros sistemas (redes). Por exemplo, podemos descrever esquematicamente um ecossistema como uma rede com alguns nodos. Cada nodo representa um organismo, o que significa que cada nodo, quando amplificado, aparece, ele mesmo, como uma rede. Cada nodo na nova rede pode representar um órgão, o qual, por sua vez, aparecerá como uma rede quando amplificado, e assim por diante (2003: 44).

O mundo sob esta ótica é assim poeticamente percebido por Hock:

A linguagem é uma comunicação desajeitada, comparada à que acontece entre a brisa e o pássaro. A inseparabilidade e a totalidade estão em toda a parte. Ossos e penas, carne e espírito, espaço e tempo – vento, pássaro, luz do Sol, Terra, homem – irrevogavelmente interligados, definindo um ao outro. Todos cooperam e competem entre si ao mesmo tempo, separados mas inseparáveis, um todo de partes de uma parte de todos, nenhum no controle, mas tudo em ordem. (...) É impossível conceber ‘coisa’ sem o conceito de ‘não-coisa’. Não há pássaro sem homem e não há homem sem pássaro. Onde estão os limites, a não ser na mente? (2003: 33)

Edgar Morin defende uma reforma do pensamento que possibilite a aplicação dessas novas idéias, pois considera o ser humano como reducionista por natureza e, por isso, é necessário um esforço para que possa compreender a complexidade, pois a simplificação não exprime a unidade e a diversidade presentes no todo, condenando a perda de visão geral, sem condenar a especialização.

É o que tem acontecido com as organizações também. A grande maioria das pessoas que a compõem realizam seu trabalho compartimentado sem participação no produto ou resultado do início ao fim do seu processo. Neste caso, um operário que assenta tijolos num edifício em construção, quando acabado, não o reconhece como obra sua.

Por mais preponderante que ainda seja o pensamento reducionista do cartesianismo antropocêntrico, a complexidade, resultante da complementaridade das visões de mundo linear e sistêmica que ora se descortina, somente poderá ser entendida a partir do pensamento complexo - aberto, abrangente e flexível - para o entendimento das constantes mudanças da realidade sem negar a multiplicidade, a aleatoriedade, a incerteza e convivendo com elas (Mariotti, 2000).

Esta visão de realidade é assim expressa por Góis [9]: “a realidade é um todo em movimento complexo (instável, impreciso e incerto), que se transforma mediante uma estranha rota feita de múltiplos laços de re-alimentação entre suas unidades menores”.

Portanto, em ambientes organizacionais, as pessoas não devem estar focadas somente nos resultados, possibilitando, assim, ficar mais facilmente abertas frente às bifurcações.

No pensamento de Silva (2003), o que se percebe atualmente é uma crise de legitimidade — perda de vigência dos valores, princípios, premissas e promessas — que caracteriza o ocaso de uma época. Vivenciamos a fragmentação da coerência interna de famílias, grupos sociais, organizações, comunidades e sociedades, bem como a perda de correspondência entre estes atores e seus respectivos contextos relevantes.

Este mesmo autor alerta para as exigências da mudança de época que ora vivemos ao enfatizar que, durante a mudança de época (ascensão do capitalismo), a ciência moderna ganhou legitimidade como uma “ciência para a sociedade”, uma “ciência sem consciência” em correspondência com a indiferença do industrialismo emergente:

Durante a atual mudança de época (...) a sociedade civil exige uma ciência da sociedade, uma ciência com consciência em correspondência com a sustentabilidade do Planeta e de 'mundos' menos desiguais e mais justos e felizes.... Uma vez mais, tudo que é sólido se dissolve no ar e tudo que é sagrado é profanado (Silva, 2003: 2).

O modo como nos tornamos propensos a pensar, por meio da educação e da cultura, é que vai determinar as práticas no dia-a-dia, tanto no âmbito individual quanto no social. Daí a importância de se ter claro que paradigma está norteando uma ação humana para que, de fato, o ser humano, então, possa vir a ser o próprio construtor de si mesmo no mundo, como nos lembra Luckesi, citado por Cavalcante (2001: 77): “Quem não pensa é pensado por outros”.

Com uma visão de mundo a partir do pensamento complexo, um gestor ou consultor ou qualquer integrante do ambiente organizacional pode abrir novas perspectivas para soluções de problemas interiores seus, cotidianos do ambiente interno da empresa e mesmo do mundo ao seu redor.

Em meio ao paradigma da complexidade, Toro (2002), em seus estudos para a fundamentação de sua teoria sobre a Biodança [10] para integração das dimensões saudáveis do ser humano, resgatando a afetividade para uma revalorização da vida, a partir do movimento, da música e da vivência, privilegiou a vida como centro organizador de tudo que existe, rompendo definitivamente com a visão antropocêntrica de mundo.

A vida, então, passou a ser o paradigma norteador de todo o pensamento desenvolvido por Rolando Toro, que, em discussões conjuntas com outros estudiosos da Biodança ligados à área educacional, desenvolveram uma pedagogia voltada para o encontro (consigo, com o outro e com o meio) – a Educação Biocêntrica –, teoria que vem sendo construída a partir de princípios e conceitos ainda não usuais. Nas organizações em geral, estes são alguns dos novos conceitos: afetividade, construção do conhecimento, reflexão, diálogo, vivência, corporeidade, identidade saudável, criatividade, auto-avaliação, transcendência, qualidade de vida, ação compartilhada e solidária, círculo de cultura, palavra geradora, promoção de mudanças culturais, desenvolvimento de habilidades e competências, laboratório temático e consultoria de terceiro partido.

O papel de líder, gestor, consultor ou facilitador comprometido com a vida, com a saúde, com os valores humanos, enfim, com a ética sempre será o de um bom educador. Não diferente, um educador biocêntrico buscará trazer à baila a vida como centro organizador de tudo que existe, potencializando o que há de bom em si mesmo, no outro e no meio. Com a compreensão da teoria da complexidade, um gestor, consultor, facilitador ou líder tem a possibilidade de abrir novas perspectivas com soluções mais saudáveis e criativas para problemas cotidianos do ambiente interno de sua empresa e do mundo ao seu redor.

A complexidade é, hoje, compreendida como um fato da vida que corresponde à rede resultante da contínua interação entre infinitos sistemas e fenômenos diversos que compõem o mundo natural.

Somos um sistema complexo, multidimensional sendo, ao mesmo tempo, formados no âmbito micro de infinitos sistemas complexos e, no âmbito macro, integrantes de um infinito sistema complexo – o Todo.

Esta é a nova visão de mundo que se configura. Visão que, segundo Mariotti (2000), aceita e procura compreender as mudanças constantes que acontecem na realidade, aceitando a multiplicidade, a aleatoriedade e a incerteza, convivendo com elas.

Dentre os vários conceitos ligados ao pensamento complexo nas organizações Tôrres (2001) cita: complexidade, cultura, diálogo, diversidade, eqüidade, interdependência, multicausalidade, natureza, planeta, solidariedade, sustentabilidade, pessoas, valores humanos, ética, relacionamento e processo, liderança compartilhada, significado compartilhado, consenso, cooperação, comunidade, domínio coletivo, alavancagem da diversidade, contexto, gerente conceitual, história, prospecção, participação, sistema, cenários, autoridade do argumento, pessoa integrada, saúde, contraste, instabilidade, diversidade, criatividade, opções, auto-organização, dentre outros.

Segundo Tôrres (2001), especificamente nas organizações, o pensamento complexo e a teorias que lhe dão sustentação podem ser aplicadas, como está exposto a seguir.

A visão de uma organização, enquanto fractal, importa na percepção de interação entre todas as suas partes que, por sua vez, refletem a organização como um todo. Não há hierarquização e cada pessoa de cada unidade é investida de poder, com autonomia para agir sem desvinculação dos princípios, conceito e estrutura em busca do propósito que norteia a organização como um todo, assunto tratado mais à frente no capítulo 6 – A organização biocêntrica.

Cada unidade, do mesmo modo, tem autonomia para agir em conformidade com os preceitos relatados. Uma unidade, nesse contexto, supera o conceito de equipe, sendo formada pela visão de time em que cada um coopera a partir de determinado propósito, integrando todos e formando, portanto, uma unidade. Como o é, em escala maior, a organização como um todo.

Os fractais trouxeram a importância do aumento dos limites da organização seja no âmbito micro, pela ampliação de visão sobre detalhes ou no âmbito macro, percebendo a escala utilizada como detalhe de uma visão muito maior. Pode ainda, reformular um padrão existente, de forma retrospectiva, pelo desenvolvimento de novas interpretações de eventos passados.

Com a mesma percepção de que os limites dos fractais são permeáveis, vislumbra-se a organização como entidade permeável que realiza intercâmbio de dados, energia, matéria com cada pessoa que lhe forma (movimento entre a organização e cada pessoa) e em maior escala com o mundo (entre a organização e o todo – clientes, não-clientes, fornecedores, parceiros, outras organizações, meio-ambiente, etc.). Essa percepção de mundo já existia há 500 a.C. quando Anaxágoras citado por Tôrres (2001), afirmava que: “tudo pode ser dividido em partes ainda menores, mas mesmo na menor das partes existe um pouco de tudo”.

O conceito de interconectividade está hoje perceptível em todas as dimensões da vida como nas relações entre as pessoas, suas relações com o meio-ambiente, com a organização, com a tecnologia e com a natureza.


[1] Ilya Prigogine (25/01/1917, Moscou, Rússia - 28/05/2003, Bruxelas, Bélgica) foi ganhador do Prêmio Nobel de Química de 1977 pelos seus estudos em termodinâmica de processos irreversíveis resultando na formulação da Teoria das Estruturas Dissipativas. Foi professor da Universidade Livre de Bruxelas/Bélgica e da Universidade do Texas, Austin (Wikipédia, 2005).

[2] Definição de sistemas auto-organizados com estreita associação entre estrutura e ordem e dissipação (em sistemas abertos, a dissipação torna-se uma fonte de ordem) (Capra, 2003).

[3] Ilya Prigogine realizou a ligação essencial entre sistemas em não-equilíbrio e não-linearidade, Herman Haken (Alemanha) desenvolveu a teoria não-linear do laser; Manfred Eigen (Alemanha) estudou os ciclos catalíticos; James Lovelock (Inglaterra) desenvolveu o modelo da hipótese Gaia – o planeta Terra como um todo é um sistema vivo, auto-organizador; Lynn Margulis (Estados Unidos) microbiologista que elaborou juntamente com James Lovelock a Hipótese Gaia; Humberto Maturana (Chile) e Francisco Varela (Chile) desenvolveram estudos sobre a organização dos sistemas vivos, o conceito de autopoiese e dos sistemas vivos como sistemas cognitivos. (CAPRA, 2003)

[4] Neurocientista chileno (1928 - ), desenvolveu estudos na área da biologia na Inglaterra e nos Estados Unidos na década de 50, retornando à Universidade de Santiago – Chile em 1960, onde especializou-se em neurociência e no entendimento da percepção da cor. (Tierramerica, 2005)

[5] Neurocientista chileno (7/9/1946, Chile - 28/5/2001, Paris, França) da Universidade de Santiago, foi aluno de Humberto Maturana com quem colaborou a partir de 1970. Foi co-criador com Maturana do conceito de autopoiese. (Enolagaia, 2005)

[6] Em química, catalisador é uma substância que aumenta ou diminui a velocidade de uma reação química sem ser, ele próprio, alterado no processo. (Wikipédia, 2005)

[7] Matetemático e generalista do século XX (29/4/1854, Nancy, França - 17/7/1912, Paris, França). Foi quem utilizou a topologia – geometria não-euclidiana, na qual todos os comprimentos, ângulos e áreas podem ser distorcidos à vontade, ou seja, todas as figuras podem ser transformadas umas nas outras por meio de desdobramento, estiramento e torção (Setrem, 2005; Capra, 2003).

[8] Com os computadores atuais de alta velocidade tornou-se possível traçar as trajetórias complexas da figura proposta por Poincaré. (Capra, 2003)

[9] Extraído de apontamentos de sala de aula do curso Habilidades em Consultoria e Desenvolvimento Humano (13/09/2003).

[10] Definida por Toro, como: um "sistema de promoção da renovação orgânica como resultado da homeostase, do equilíbrio interno e da redução dos fatores de estresse; de reeducação afetiva por meio do fortalecimento dos vínculos estabelecidos nas relações consigo mesmo e com o outro; de reaprendizagem das funções originais da vida através da sensibilização dos instintos básicos indispensáveis à sobrevivência da espécie" (2002:33).

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Fonte: SAMPAIO, Irene Nousiainen. Organização Biocêntrica - emergência de um novo paradigma na administração. Fortaleza, 2005. 116 p. Monografia (Especialização em Educação Biocêntrica - A Pedagogia do Encontro) – Universidade Estadual do Ceará.

sábado, 8 de setembro de 2007

EMPRESA REDE E REDES EMPRESARIAIS: A ESTRATÉGIA EMPRESARIAL DO 3 MILÊNIO

Texto de: Ruy de A. Mattos
http://www.emco.com.br/artigos06.htm


As Redes Empresarias são estruturas dinâmicas, virtuais e flexíveis de produção e venda de bens e de serviços. Baseiam-se na interdependência de seus parceiros que constróem um conjunto sinérgico, cuja força resultante é sempre maior do que a soma das forças de seus componentes, com a vantagem destes não perderem suas identidades e características individuais.

É da natureza da Rede Empresarial crescer continuamente, impulsionada por um processo descentralizador que multiplica os centros decisórios, sem a perda da visão do todo interconectado. Ela não cresce vegetativamente, por incorporação ou massificação, mas por integração, interdependência e cooperação entre seus parceiros.

A estratégia de Rede pode ser resumida em duas diretrizes:

Primeira: tornar grandes e fortes as pequenas e médias empresas, sem que elas percam sua identidade e sua autonomia.

Como? Criando-se redes de empreendimentos, através de alianças e parcerias, combinando-se, desse modo suas competências, suas necessidades, seus recursos e suas vocações.
Qual o resultado disso? O aumento das vendas e da lucratividade, a redução de custos, a publicidade efetiva, a facilidade de acesso ao crédito e às novas tecnologias.

Segunda: tornar ágeis e flexíveis, as grandes empresas e instituições (inclusive as públicas), aumentando sua qualidade e sua produtividade e ampliando seu campo de atuação.

Como? Remodelando a Organização, substituindo a estrutura piramidal por estrutura de Rede Interna de modo a descentralizar, efetivamente, o poder decisório, substituindo os níveis hierárquicos por níveis de competência para solucionar problemas e criar soluções; substituindo os controles formais e as regras burocráticas por controles de resultados e de qualidade dos procedimentos.

Esta é uma mudança do modelo de gestão e de estruturação da atividade empresarial. Neste caso estamos substituindo o anacrônico modelo hierárquico da Pirâmide Burocrática: concentrador de decisões, gastador de recursos, amortecedor da criatividade e desqualificador do empregado e do cliente, pelo moderno Modelo da Rede Empresarial: descentralizador de decisões, multiplicador de recursos, estimulador da criatividade e valorizador do empregado e do cliente.

As vantagens do Modelo de Rede sobre o Modelo de Pirâmide são inúmeras. A grande dificuldade é fazer-se esta transição, uma vez que exige mudança de mentalidade dos indivíduos e da cultura da Organização (Empresa ou Instituição).

Mas tudo indica que esta é uma mudança inevitável. Quem deixar para depois vai, certamente, encontrar muitas dificuldades pela frente, neste cenário de crescente competitividade e de clientes e cidadãos cada vez mais exigentes quanto aos produtos, preços e serviços que recebem.

Nesse sentido, concordamos inteiramente com Gilson Schwartz, articulista da FOLHA DE S. PAULO, quando afirma que "as principais mudanças econômicas dessa época de transição apontam todas rumo ao reforço das redes. Assim, paradoxalmente, o capitalismo vai colocando em primeiro plano as qualidades dos corpos "coletivos", que, para funcionarem, exigem de cada indivíduo mais interação do que competição, mais criatividade do que reatividade."

A empresa-rede constrói-se de fora para dentro, respondendo a cada demanda do cliente com um novo produto ou serviço, num contínuo processo de feedback ao seu desempenho.

O símbolo mundial dessa estratégia é a Toyota, que mantém uma rede de comunicação que a interliga com seus clientes de carteirinha. No Japão, um cliente-Toyota possui um cartão magnético que, ao inserir no computador da loja, obtém todos os dados disponíveis sobre produção, modelos, preço, tempo de entrega, condições de compra etc, etc e pode alimentar o sistema de informações com seus próprios interesses e exigências - que serão prontamente atendidas. Os consultores de venda da Toyota não estão interessados em fechar a venda daquele veículo, para aquele cliente - eles estão comprometidos em criar um vínculo vitalício de parceria com a "equipe-cliente"(sua família e seus descendentes), de modo a servi-los com a melhor qualidade e o menor preço possíveis.

São iniciativas como estas que concretizam a relação de parceria com os clientes, trazendo-os para dentro da empresa e tendo-os como consumidores de qualidade real. Para tanto é necessário perspicácia, coragem e humildade que, combinadas, criam a atitude de aprendiz, indispensável ao desenvolvimento e ao sucesso de qualquer pessoa ou Organização.

Desde a década de 60, a Volvo sueca vem remando contra a maré Taylorista das linhas de montagem, tendo obtido ótimos resultados com o modelo de Células de Trabalho, segundo o qual divide todo o seu processo produtivo. Desde então, várias empresas vêm seguindo o exemplo da fábrica Kalmar da Volvo, reduzindo drasticamente seus níveis hierárquicos, dando maior autonomia a cada Unidade Produtiva, que assume o perfil de micro-empresas interligadas umas às outras por redes de permuta ou compra e venda de produtos e serviços.

A Revista EXAME tem divulgado diversas experiências de empresas que se reestruturaram em rede (interna) de células de produção, centros de lucros ou configuração semelhante:

A Asea Brown Boveri (ABB) uma mega multinacional espalhada em 140 países e que emprega 213.000 funcionários, passou por uma revolução administrativa com a descentralização do poder e a divisão da companhia em unidades muito menores, inspiradas nas pequenas empresas. Aproximou a companhia dos clientes. Estruturou-se em 65 áreas de negócios e 5.000 centros de lucros.

A Delco, fabricante de baterias, adotou um sistema de gestão participativa em que os 280 funcionários (fábrica de Piracicaba) foram divididos em 30 times, compostos de até 15 pessoas. Essas equipes têm autonomia para definir turnos de trabalho, volume de produção e contratação de pessoal.

A Stihl brasileira, fabricante de motosserras, reestruturou-se em oito minifábricas que mantém entre si o relacionamento fornecedor-cliente. Cada minifábrica é avaliada todos os meses, de acordo com cinco indicadores: custo operacional, aproveitamento das máquinas, índice de desperdício, pontualidade no atendimento e qualidade do produto final. A cada seis meses, os empregados das minifábricas, com melhores resultados, são premiados com até 1,3 salário.

A Marcopolo, a maior montadora de carrocerias de ônibus, hoje um exemplo brasileiro de qualidade, estrutura seu processo produtivo em células de manufatura, ao invés de linhas de produção contínuas, desde 1988.

Além dessas empresas, o Grupo ALGAR, de Uberlândia, em l989, operou uma grande transformação em sua estrutura, passando a adotar o Modelo de Rede como base da gestão de suas 25 empresas. Sua meta para este ano é transformar cada uma de suas unidades organizacionais em micro-empresa, com elevada autonomia de gestão, constituindo, em conjunto, uma espécie de federação empresarial.

Quanto às redes inter-empresariais, temos diversos exemplos eloquentes da expansão deste modelo de empreendimento no Brasil.

Há diversas empresas que vêm implementando programas de capacitação e consultoria gratuitas junto a seus fornecedores, como parte da estratégia de just-in-time que estão implantando. "A Gradiente, está apostando suas fichas em dez pequenos fabricantes de caixas para televisores (...); a Credicard, selecionou seis prestadores de serviços, entre empresas de telemarketing e de venda de cartões; a divisão têxtil da Rhodia procura melhorar o desempenho de oitenta pequenos micro empreendedores (...); a Agrale, fabricante de tratores, deslanchou um projeto para beneficiar setenta dos seus 450 fornecedores."

Além do just-in-time, há diversas empresas criando redes de produção através da complementaridade de suas competências, sem, no entanto, se fundirem. Estão criando alianças estratégicas ou corporações virtuais.

Foi o que fizeram a Sadia e a Refinações de Milho-Brasil. "Sem deixarem de ser concorrentes no mercado de óleo comestível, elas acabaram de lançar, juntas, a margarina Mazola," através de uma aliança estratégica na qual a Sadia entrou com a sua linha de produção e sua frota de distribuição formada por 1.750 caminhões e a Refinações de Milho-Brasil entrou com a grande penetração junto aos consumidores da marca Mazola e com a matéria-prima. O resultado dessa aliança foi a conquista de 11% do mercado de margarinas em três anos de atuação.

Outro caso, já bastante conhecido é a PROMON que, de uma empresa de projetos de engenharia, transformou-se numa parceira de corporações virtuais com a Northern Telecom do Canadá, na área de Telecomunicações, com a Hughes, no setor de telecomunicações via satélite e outras, de modo que hoje "extrai 60% de seu faturamento de 230 milhões de dólares de suas empresas virtuais".

A VARIG criou uma corporação virtual com a Delta Air Line e com a Japan Air Line, conseguindo, com isso, entrar em mercados que sozinha não conseguiria; além disso, VARIG, Transbrasil e VASP operam há muito tempo a ponte aérea Rio-São Paulo como uma corporação virtual, talvez a primeira no Brasil.

A Bauducco estabeleceu parcerias com a americana Mars, fábrica americana de chocolates e com a suíça Wander para o lançamento de novos biscoitos no mercado, numa relação ganha-ganha, em que cada parceiro investe e recebe 50% dos resultados da corporação virtual.

A Coopercentral, cooperativa de Chapecó, Santa Catarina, ela própria já uma rede de empreendimentos, estabeleceu uma corporação virtual com outra cooperativa, a Cotrijuí, do Rio Grande do Sul, outra rede composta por mais de 14.000 associados, para a produção de salames e lingüiça, com a marca Aurora. "O negócio tem gerado faturamento mensal de cerca de 750.000 dólares, já estão introduzindo o 3o turno na Cotrijuí, enquanto a Coopercentral economizou 15 milhões de dólares ao evitar construir nova fábrica."

Há uma empresa-rede típica que resultou do arrojo de quatro jovens empreendedores. Refiro-me à Prestar Serviços, que estruturou-se numa enorme rede de prestação de serviços de socorro a automóveis, 24 horas por dia, em qualquer lugar do Brasil. "A empresa é o resultado de um minucioso trabalho de busca e formação de alianças estratégicas (...) São mais de 15.000 alianças feitas com autônomos, como médicos e eletricistas, ou com donos de pequenos negócios, como hotéis e hospitais. A chave do sucesso da Prestar está justamente em unir a necessidade que algumas empresas têm de oferecer bons serviços a seus consumidores e aqueles autônomos e pequenos empresários que podem executar esses serviços. (...)

Foi com essa estrutura, de alianças numa ponta e clientes que precisavam de serviços na outra, que a Prestar conseguiu, em seu primeiro ano de vida, um faturamento de 1,5 milhão de dólares".

Outro fenômeno que se consolida e expande vertiginosamente no Brasil é a rede de vendas a domicílio, combinada ao marketing de rede. Ao lado da veterana Avon, com suas 330.000 revendedoras, estruturou-se a Natura, também na área de produtos de beleza, com 60.000 representantes de vendas e, mais recentemente, a empresa americana Amway, que já em 1994, movimentou um volume superior a 1,2 bilhão de dólares no Brasil, com seus mais de 150.000 distribuidores. No rastro desse sucesso, outra empresa americana que desembarcou aqui em 1994, foi a Nature"s Sunshine, que vende vitaminas e complementos alimentares e que já possuía, em seu primeiro ano de atividades, mais de 3.000 distribuidores.

Em Brasília, em 13 de maio de 1993 foi criada a Rede da Economia, formada por 16 empresários da área de farmácia. Hoje são 40 sócios, que, com esta estratégia, conseguiram driblar a crise que se abatia sobre a atividade e saíram vencedores, ao ponto de serem um dos maiores anunciantes da televisão local. No rastro desse caso de sucesso vêm surgindo diversas outras iniciativas, tais como: Rede de supermercados, de auto-peças, de lojas de cosméticos, de bancas de revistas, etc. demonstrando que a estratégia de rede veio para ficar e começa a expandir-se pelo Brasil afora. Hoje, é comum a vinda de empresários de outros estados a Brasília, para junto aos participantes da Rede da Economia, buscar informações e orientações para a construção de Redes Empresariais em suas cidades.

CONSTRUINDO A DEMOCRACIA NAS ORGANIZAÇÕES

Texto de Ruy de A. Mattos
http://www.emco.com.br/artigos07.htm

A construção da democracia não pode ocorrer somente em nível das relações da sociedade com o Estado, seja através da interdependência e autonomia entre os três poderes da república, se por meio das eleições de nossos dirigentes e legisladores.

Uma sociedade será tão democrática quanto mais democráticas forem suas instituições e suas Organizações públicas e privadas.

É preciso coragem, despreendimento e persistência para construir os valores da democracia no âmbito das relações de trabalho que se estabelecem entre dirigentes, chefias e servidores nas Organizações públicas e entre patrões, gerentes e empregados, nas empresas privadas. E não basta a substituição do rótulo de "empregado" ou "servidor" para o de "'colaborador" como se tem feito, cinicamente, em muitas instituições, sem que isto de fato represente qualquer mudança nas relações de poder.

A democracia nas Organizações é construída sobre três pilares: a legitimidade, a participação e a simetria.

A legitimidade indica o nível de aceitação do líder por seus liderados, sendo assim, a base da autoridade, enquanto relação de poder que garante o cumprimento natural das decisões por aqueles que irão executá-las. Nas organizações, a legitimidade pode ser construída sobre o reconhecimento da competência gerencial. A eleição é a síntese desse reconhecimento, que se traduz no voto de confiança que os eleitores depositam no candidato, enquanto futuro gestor. Ainda pouco usada no âmbito organizacional, a eleição é a manifestação mais clara da legitimidade.

A participação é o fator que revela o grau de adesão voluntária dos liderados na construção e implementação das decisões organizacionais. É de sua natureza ser consciente, do contrário, teremos no lugar da participação, a execução obediente, desprovida de entusiasmo.

A participação é ação coletiva partilhada conscientemente. Quando ocorre, seus agentes assumem completa responsabilidade pelos êxitos, fracassos, sacrifícios e júbilos de cada empreitada.

Uma organização democraticamente dirigida tem na participação sua principal característica. Seus funcionários ou empregados fazem do trabalho um compromisso de cidadania com a realização do bem comum, que se expressa na satisfação da comunidade e no melhor atendimento ao cliente.

A simetria de poder entre interlocutores é o fator responsável pela construção de relações de mútuo respeito entre líderes e liderados. Quando a simetria é mantida em grau elevado, a liderança é fortalecida com a comunicação e o diálogo. Do contrário enfraquece-se em seus valores democráticos e passa a realçar seu lado autoritário e até mesmo despótico, ao atingir o extremo isolamento - "a solidão do gabinete". Desse modo, ao afastar-se psicologicamente de seus liderados, o líder mitifica-se e corre o risco de ser idolatrado ou repudiado por estes.

OS FATORES DETERMINANTES DA DEMOCRACIA NAS ORGANIZAÇÕES

Queremos destacar dois fatores que, ao nosso ver, determinam em grande parte o processo de democratização das Organizações: a capacidade de aprendizagem organizacional, que se expressa na produção e na disseminação do conhecimento; o desenho organizacional, que se manifesta nos regulamentos e normas de conduta, na designação de autoridade e responsabilidade e no modelo de comando e controle.

A Aprendizagem Organizacional

Quando se percebe que a qualidade do trabalho é diretamente proporcional ao nível de conhecimento produzido e disseminado entre as pessoas que o realizam, a aprendizagem organizacional aflora nas Organizações. As pessoas são estimuladas a romper barreiras construídas pela divisão hierárquica e burocrática do trabalho.

Na atual era do conhecimento em que vivemos, conhecer é cada vez mais sinônimo de poder. O grande desafio da construção da democracia é criar mecanismos gerenciais, culturais e estruturais que substituam a centralização do conhecimento nos altos escalões decisórios e o dissemine por toda a Organização, com ênfase na qualificação daqueles servidores ou empregados que se encontram nas fronteiras da Organização com seu meio-ambiente, atendendo face-a-face os clientes.

Ao criar redes de aprendizagem disseminadoras de conhecimentos, habilidades e atitudes, interligando os vários níveis e unidades, estaremos substituindo as ligações burras, repetitivas e disciplinadas do autoritarismo burocrático que manda e controla, por vínculos inteligentes, ricos de significado e de diálogo, típicos de relações de trabalho respaldadas na interdependência e no comprometimento mútuo, bases da democracia organizacional.

O Desenho Organizacional

O organograma é a representação gráfica da distribuição de poder na Organização. Sua forma mais tradicional é a pirâmide hierárquica que revela que as pessoas que desempenham as funções situadas em seu ápice concentram o poder e o conhecimento. À medida que descemos os degraus da hierarquia (comando sagrado, em grego) vemos o poder de diluindo e o conhecimento se transformando em memória repetitiva. Esta é a ideologia que sustenta as relações de trabalho numa organização típica da pré-revolução industrial e que vem persistindo até hoje, como fóssil vivo. No outro extremo, temos desenhos organizacionais que expressam e promovem a distribuição de poder e de conhecimento por todos os componentes organizacionais. A forma mais típica dessa nova estrutura organizacional é a Rede de Trabalho, constituída por Células de Negócios interligadas entre si por contratos de gestão e articuladas por um núcleo central.

Está clara a relação entre os modelos organizacionais e o regime de poder na Organização. Fazendo uma alegoria, podemos dizer que a estrutura constitui o esqueleto, o conjunto normativo representa a musculatura e as relações de trabalho revela o comportamento coletivo isto é, a cultura organizacional que, num círculo vicioso, reforça a estrutura e assim por diante.

A Pirâmide Hierárquica é o esqueleto ideal para criar e manter o autoritarismo combinado ao servilismo e fazer do controle e da disciplina os valores preponderantes da cultura organizacional. Por outro lado, a Rede de Trabalho, é a estrutura ideal à manifestação da democracia nas relações de trabalho, estimuladas pelo respeito mútuo, pelo comprometimento e pela construção coletiva dos destinos organizacionais.

A Democracia nas Organizações, apesar do tabu que ainda representa em nosso mundo tão racionalista e mecanicista, tem sido responsável pela migração de profissionais, em busca de melhores condições e oportunidades de desenvolvimento. Em recente reportagem, a Revista EXAME, ao tratar do tema de capa "Como Atrair Talentos", revela os casos de Alexandre Pombo e de Eduardo Cocozza: o primeiro responsabiliza "a estrutura monolítica da IBM que não permitia que eu exercesse a minha criatividade. Basicamente eu tinha que cumprir ordens e isso me frustrava"; o segundo, que mudou de empresa sem ganhar qualquer aumento salarial com isso, também condena a "estrutura rígida. Eu estava lá fazia seis anos e não via chance de mudanças a não ser a longo prazo."

Imaginem a situação de inúmeros outros empregados e servidores públicos que, ao se verem despreparados para um novo emprego, têm que se sujeitar ao ambiente autoritário, castrador da cidadania, que ainda caracteriza a grande maioria das Empresas e das Organizações Públicas de nosso país.