terça-feira, 20 de janeiro de 2009
CULTURA BIOCÊNTRICA
A vida não existe para servir ao ser humano. O ser humano faz parte da teia da vida como qualquer outro ser vivo. A ilusória força de nossa predação é que nos dá a falsa impressão de poder sobre a vida. Se nós, seres humanos, conseguirmos nos destruir, a vida continua. Mas se a vida se extinguir, nós extinguiremos junto.
Essa é a visão biocêntrica em superação à antropocêntrica do século passado.Para que essa nova e justa visão nos permita viver harmoniosamente integrados com tudo que existe é necessário que consolidemos uma cultura biocêntrica - em favor da vida como um todo.
Feliz muitos e muitos novos anos a mais!
Irene Nousiainen
quinta-feira, 16 de outubro de 2008
EDUCAÇÃO BIOCÊNTRICA - Por uma educação centrada na vida
Do site: www.prorext.ufrgs.br/nucleos/niete/texto-feliciano2.doc
Fotos extraídas de diversos sites da Web e do meu arquivo pessoal
EDUCAÇÃO HOJE
A Educação institucionalizada que vigora predominantemente nas sociedades atuais consiste em um processo de enquadramento da pessoa a um modelo determinado pela cultura; objetiva levar o “educando” à adaptação a esquemas de convivência considerados adequados para aquela sociedade.
Este enquadramento é orientado por modelos e esquemas de conduta, que prevêem e estabelecem como deverá ser o comportamento da pessoa no seu meio social, e por modelos e esquemas de conhecimentos, isto é, estabelecendo a priori o que é importante saber e que conhecimentos têm valor para aquela sociedade.
Assim, a Educação institucionalizada, com suas normas de comportamento e seus programas de conteúdos, é um processo que atua de fora para dentro, sem considerar, e mesmo desrespeitando completamente a individualidade, a identidade pessoal.
Nas palavras de Rolando Toro (1991), criador de Sistema Biodanzaâ:
“A Educação contemporânea, em quase todo o Ocidente, não cumpre sua tarefa de entr
egar ao indivíduo pautas internas de desenvolvimento. Não desperta nele os germens naturais de vitalidade, nem os valores do íntimo. Não desenvolve os potenciais criativos, a liberdade intelectual, nem a singularidade das aptidões. Não fomenta o esplendor das relações humanas. A Educação atual tende a produzir a adaptação servil ao establishment”.
A estrutura do sistema escolar é fundamentalmente influenciada por conceitos religiosos/militaristas de autoridade e hierarquia e por conceitos desportivos na sua pior acepção de competição e superação do adversário.
Os alunos sentam-se em fileiras, um olhando a nuca do outro, em “posição de sentido”, enquanto o “sargento-professor”, freqüentemente sobre um plano mais elevado, dá as ordens do que aprender e de como se comportar.
No caso destas ordens não serem cumpridas, terá que fazer “flexões” de constrangimento na Orientação Pedagógica ou a “solitária” na sala da Direção. A pena maior é a “prisão” naquele nível letivo por mais um ano.
A modalidade desportiva consiste nos “saltos de obstáculos” das provas, na “conquista” das notas e na “vitória” de passar de ano.
Na escola se pratica o mais nefasto darwinismo social: a luta pela vida e a predominância do mais forte. Tudo isto justificado pela pretensa preparação do aluno para ter sucesso futuro na livre e sadia competição no mercado de trabalho.
Cabe aqui citar a expressão de H. Maturana (1997), em seu livro Emociones y Lenguaje en Educación y Politica:
“A competição não é e nem pode ser sadia porque se constitui na negação do outro”
Trabalho cooperativo, nem pensar: o meu “colega-adversário” será um outro “competidor” no Vestibular e na exigente arena do citado mercado de trabalho.
Os movimentos instintivos de associação, cooperação, divisão de tarefas e integração, típicos dos organismos e comunidades vivos, são absolutamente negados na escola como reflexo do que ocorre na sociedade.
Neste particular temos que admitir que a escola não poderia ser outra na sociedade em que vivemos.
Por outro lado, é precisamente na escola que a transformação da sociedade pode ter início.
POR UMA ECUCAÇÃO CENTRADA NA VIDA
Ao ser proposta uma Educação centrada na vida torna-se necessário esclarecer o que se pretende com cada termo utilizado.
O conceito de Educação pode ser examinado na visão de diferentes autores. O sentido que usamos resulta de uma interpretação das raízes etimológicas da palavra: ex = para fora; ducere = conduzir, tirar. Assim, entendemos que Educação é o processo de possibilitar e incentivar o ser humano a “sair para fora”, expressar todas as suas potencialidades, tirar de dentro tudo aquilo que o revela como “ser humano”.
Quanto à idéia de vida que pretendemos apresentar aqui, esclarecemos:
1º - Vida, no contexto que a tomamos, não significa apenas a experiência do cotidiano no sentido da “vida que a gente leva”. No entanto, ao dizermos que “não significa apenas”, queremos assegurar que significa também o “viver de cada dia”.
Este viver passa a ter um significado especial, mais saboroso e nobre, quando o vivemos impregnados de um sentido mais profundo de vida.
2º - Vida, no contexto que a tomamos, não se limita, também, apenas às propriedades biológicas dos chamados seres vivos. Não obstante, consideramos que este aspecto, o biológico, não está fora da concepção de vida que queremos apresentar.
Quando usamos o termos Vida, aqui com letra maiúscula, como centro de um processo educativo, queremos significar “vida como expressão existencial”.
Sem pretender entrar no campo filosófico, entendemos que existimos porque estamos vivos, somos porque nos damos conta da manifestação da vida em nós.
E a vida em nós é o que realmente podemos chamar de milagre.
Cada um de nós, em particular, é o resultado de milhares ou milhões de encontros entre pares humanos que se reconheceram e, muito provavelmente, se amaram. De cada encontro se originaram outros seres humanos que novamente se encontraram, se amaram e deram continuidade à procriação de outros pares, até chegarem aos nossos pais. Estes, a partir de células vivas saídas de seus corpos, possibilitaram a formação de nosso corpo vivo. Somos, portanto, biologicamente, a continuidade, sem interrupção, de fusões e multiplicações celulares, cuja origem se perde na origem da própria vida sobre a Terra.
Quanto aos encontros originários, podemos quase garantir que, se um deles, e apenas um, não tivesse ocorrido, certamente não estaríamos aqui agora. Somos, portanto, cada um de nós, o milagre dos encontros que se deram na forma que se deram.
Somos, também, e cada um de nós, formados por um corpo constituído de um aglomerado de células, cujo conteúdo vem passando, sem interrupção, de dois corpos para um outro, através das gerações. Assim, graças a esta teia de relações que nos precede, somos todos parentes, somos todos irmãos.
Assumindo que a Vida em nós é o milagre dos encontros que nos precederam, nos sentimos na obrigação de reverenciá-la como a manifestação do Sagrado.
A Vida é, portanto, uma Hierofania.
A Educação Biocêntrica visa a conexão com a Vida.
Propondo uma inversão paradigmática, a Educação Biocêntrica objetiva a expressão da Identidade e a construção da Autonomia através de um processo de dentro para fora.
A expressão da Identidade se dá na relação com o outro e com o mundo. Ao ser reconhecido pelo outro e ao reconhecê-lo como semelhante mas distinto, eu me identifico como ser único e singular. Ao me inserir e integrar ao mundo, passo a fazer parte dele e do Todo. Como um holograma vivo, sou parte e todo no Universo.
Neste sentido, a competição individualista não cabe em um mundo no qual devemos “reconhecer o outro como legítimo outro”, citando novamente H. Maturana (1999).
Reconhecer o outro implica muito mais do que uma atitude ética: significa desenvolver pelo outro uma relação emocional que se exprime na afetividade, no amor incondicional aos semelhantes, na relação fraterna, solidária e altruísta.
A Autonomia se constrói a partir das potencialidades do ser humano, daquilo que cada um é como indivíduo, daquilo que recebeu como herança genética.
Estes potenciais de vida são incentivados a se manifestar na Educação Biocêntrica através do uso do Sistema Biodanza® como instrumento mediador no processo educativo.
A identificação e caracterização destes potenciais são delineadas por Rolando Toro (1991), eminente psicólogo e antropólogo chileno, sistematizador da Biodanza®:
- a sensação eufórica de estar vivo e o ímpeto vital que nos faz estar-no-mundo com coragem, alegria e entusiasmo - a Vitalidade;
- o prazer sensorial de relacionar-nos com o mundo e com os outros manifestando nossa capacidade de desejar, buscar e desfrutar as coisas boas da vida - a Sexualidade;
- a possibilidade de criar coisas novas, de participar na transformação do mundo, de expressar-nos pela arte - a Criatividade;
- a alegria da relação afetiva, da amizade, do amor, do vínculo com os semelhantes, da solidariedade e do altruísmo – a Afetividade;
- o anseio pela transcendência, pela busca da harmonia existencial e da integração à humanidade e ao universo – a Transcendência.
A Educação Biocêntrica visa o desenvolvimento otimizado destes potenciais de vida e a expressão de uma identidade relacional e amorosa.
A prática da Educação Biocêntrica, portanto, exige uma mudança existencial de paradigmas e uma nova maneira de ver o mundo. Devemos abandonar o antigo paradigma antropocêntrico e assumir como fundamento de vida um Princípio Biocêntrico, que considera a Vida como valor supremo e como manifestação hierofânica do Sagrado.
Bibliografia citada:
Maturana, Humberto – Emociones y Lenguaje en Educación y Politica. Santiago de Chile: Dolmen, 1997.
Maturana, Humberto – Transformaciónen
Toro, Rolando – Teoria da Biodança - Coletânea de textos. Fortaleza: Editora ALAB, 1991.
Texto resumido do tema desenvolvido na Mesa Temática
“BIODANÇA: PRINCÍPIOS E VIVÊNCIAS BIOCÊNTRICAS NA EDUCAÇÃO”,
apresentada no
II FÓRUM NACIONAL DE EDUCAÇÃO: HUMANIZANDO TEORIA E PRÁTICA.
UNISC – Universidade de Santa Cruz do Sul – agosto, 2002.
Autor: Feliciano Edi Vieira Flores: Licenciado em Biologia, Mestre
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do site: www.prorext.ufrgs.br/nucleos/niete/texto-feliciano2.doc
sexta-feira, 17 de agosto de 2007
Educação Biocêntrica - Uma proposta de valorização da vida
Diante do terror da origem, diante da solidão inexorável do infinito, os seres humanos buscam uma resposta olhando-se nos olhos. Nossas existências não foram deixadas ao acaso como os meteoritos ardentes no espaço côncavo, mas sim nasceram da linfa milenar, do útero cósmico que se nutre e respira com o amor dos elementos. Na luz da origem, na clareira paradisíaca da realidade, nós nos buscamos reciprocamente (Toro, 2002: 52).
A Educação Biocêntrica propõe uma inversão paradigmática pautada na valorização da vida e objetiva a expressão da identidade e a construção da autonomia por meio de um processo de ressignificação de dentro para fora. Exige, portanto, uma mudança existencial de paradigmas e uma nova maneira de pensar, sentir e agir no mundo. (Cavalcante, 2001)
A compreensão e vivência de seus postulados, enquanto propósito, é essencial para que o consultor, líder ou facilitador possa propiciar um ambiente favorável entre as pessoas de modo a construírem juntas uma organização biocêntrica sendo, portanto, legitimada por todos. (Andrade, 2003)
Toro, citado por Cavalcante, assim define a proposta pedagógica da Educação Biocêntrica:
A Educação Biocêntrica parte de um novo paradigma das Ciências Humanas, que é o Princípio Biocêntrico.
A Educação deve ser representada nos seus objetivos mais profundos. Não se desqualifica a formação intelectual ou tecnológica, mas é indispensável estimular basicamente os potenciais genéticos que constituem a estrutura básica da Identidade. Toda a Metodologia deve orientar-se para a conexão com a vida.
A matéria da Educação Biocêntrica é a vida. É indispensável, em nossa cultura, recuperar o sentimento de 'socialização da vida' e gozo de viver.
O desenvolvimento da afetividade, da percepção ampliada e da expansão da consciência ética, deve ter prioridade absoluta.
A Educação Biocêntrica utiliza como mediação a Biodança, através da qual se expressam os potenciais genéticos de vitalidade, sexualidade, criatividade, afetividade e transcendência (Cavalcante, 2004: 37).
Utilizando uma metodologia teórico-reflexivo-vivencial, a educação biocêntrica, oferece, além da biodança, diversos outros recursos pedagógicos para facilitação da geração do conhecimento. Ela objetiva, primordialmente, a expressão do ser em toda a sua potencialidade, por meio da manifestação dos instintos originais e gregários determinados biologicamente, que foi suprimida pela cultura ocidental resultando na dicotomia do ser fragmentado presente na vida moderna. Busca a manifestação saudável do ser, de dentro para fora, em toda sua inteireza e consonante com a vida para a criação de uma nova ecologia social. (Cavalcante, 2001)
A expressão da identidade se manifesta na vivência por meio da relação com o outro e com o mundo. Ao ser reconhecido pelo outro e ao reconhecê-lo como semelhante, mas distinto, a pessoa identifica-se como ser único e singular integrante do todo – a teia da vida – que resulta da complexa interligação que se dá entre tudo que existe. (Cavalcante, 2001; Góis, 2002)
A autonomia se obtém com a dinamização dos potenciais genéticos que todos trazemos em nosso ser como herança.
A Educação Biocêntrica objetiva, portanto, a expressão de todas as potencialidades humanas saudáveis de valorização da vida.
______________Educação Biocêntrica - origem
Enquanto movimento de construção dialógica, a Educação Biocêntrica não se apresenta enquanto teoria finalizada, mas em constante processo de criação e recriação, em consonância com o pensamento contemporâneo da complexidade. Vem recebendo contribuições teóricas de diversas áreas das ciências, conforme apresentado no Quadro 1, a seguir:
QUADRO 1 – Teorias/teóricos essenciais da Educação Biocêntrica| Teoria | Teórico(s) relacionado(s) |
| Sistema Biodança | Rolando Toro |
| Vivência Biocêntrica | Cezar Wagner Góis |
| Método de Processo | |
| Ontologia da Vivência | Custódio Almeida |
| Nexo Psíquico Adquirido | Dilthey |
| Pré-reflexividade | Merleau-Ponty |
| Relação Eu-Tu | Martin Buber |
| Processo Grupal | Pinchón-Rivière |
| Estruturas Dissipativas | Ilya Prigogine |
| Visão de Rede | |
| Hipótese Gaia | Lovelock |
| Teia da Vida | Fritjof Capra |
| Paradigma Ecocêntrico | Leonardo Boff |
| Matrizes Perinatais numa perspectiva Transpessoal | Stanislav Groff |
| Construtivismo | Piaget |
| Emília Ferrero | |
| Sócio-Interacionismo | Vygotski |
| Holismo | Pierre Weil |
| Roberto Crema | |
| Educação Libertadora | Paulo Freire |
| Educação Biocêntrica | Ruth Cavalcante |
Ainda segundo Cavalcante (2001), a Educação Biocêntrica consubstancia-se em proposta de revalorização da vida, a partir do paradigma do princípio biocêntrico: vivência da vida em sua plenitude com a visão do universo como um fabuloso sistema vivo, uma rede autopoiética. Gestou-se a partir de três propostas pedagógicas a partir da solidariedade humana:
- a sócio-interacionista desenvolvida por Lev Vygotsky[1], que parte da mediação concreta e simbólica existente entre o ser e o mundo e, nos planos genéticos sob quatro aspectos de desenvolvimento: filogênese (nível biológico referindo-se à história e habilidades desenvolvidas de uma espécie); ontogênese (nascer, crescer, reproduzir, morrer); sociogênese (mais ou menos determinado pela cultura); e a microgênese (cada fenômeno psicológico tem sua própria história, não determinista, tornando cada ser singular).
- a educação selvagem, proposta por Rolando Toro na década de 1960, a partir da relevância dos instintos, na vida instintiva e ecológica, para conservação da vida. (Cavalcante, 2001);
- a educação biocêntrica, desenvolvida a partir do princípio biocêntrico – paradigma da teoria da Biodança –, e tendo a Biodança como mediadora (CAVALCANTE, 2001).
Denominada a “Pedagogia do Encontro”, a Educação Biocêntrica propõe, então, segundo Cavalcante:
...a ampliação da vida instintiva até as suas conseqüências psicológicas, sociais e pedagógicas, enfocando então, as duas dimensões do ser humano que se constroem dialeticamente: a vida instintiva e a construção do conhecimento biológico e social, tendo os instintos como conservadores das forças originárias da vida (2001: 8).
Ressalte-se que, nos últimos séculos, os instintos foram sendo paulatinamente colocados pelas ciências em geral como integrantes do mundo selvagem não sendo mais aceitos no ser humano enquanto ser civilizado (Cavalcante, 2001).
A Educação Biocêntrica propõe o resgate da importância dos instintos para o reencontro do ser humano com a vida em toda a sua plenitude e para a expressão do ser humano em sua inteireza, em consonância com a vida que a tudo permeia no cosmo. Como afirma Toro:
...os nossos comportamentos se organizam como expressão de vida, e não como meios de alcançar fins externos, políticos ou sócio-econômicos. Eles se desenvolvem para criar mais vida dentro da vida. Se as situações sociais e culturais são adversas, podem ser transformadas não com a ajuda de ideologias e de ações políticas, mas restabelecendo-se, a cada instante, em nossa existência, as condições pelas quais ela seja protegida (2002: 51).
Portanto, também busca a construção do conhecimento crítico, objetivando aprofundamento da tomada de consciência, para conscientização da realidade de modo contextual que possibilite a inserção, de fato, do sujeito na sociedade.
[1] Lev Semenovich Vygotsky - Bielo Rússia (1896-1934). Foi o grande fundador da escola soviética de psicologia.
______________Educação Biocêntrica - teoria
A teoria da Educação Biocêntrica vem sendo gestada no Ceará, enquanto processo pedagógico construído no diálogo permanente entre a teoria e a prática, desde a década de 80 do século passado, por Ruth Cavalcante e Cézar Wagner de Lima Góis e vem recebendo contribuições importantes de outros estudiosos.
Sua implantação vem recebendo o auxílio de muitos facilitadores de Biodança e de outros educadores abrangendo o ensino fundamental, educação especial, educação popular e ensino superior, estendendo-se atualmente também à ação comunitária e às organizações (Cavalcante, 2001).
Muito embora sua atuação ainda esteja restrita a essas áreas, a Educação Biocêntrica estende-se por todas as áreas de abrangência de ação relacional do ser humano. Muito mais que uma proposta pedagógica escolar, comunitária ou organizacional a Educação Biocêntrica passa a integrar um estilo de vida em favor da vida em um movimento constante de construção dialógica.
Enquanto teoria pedagógica, segundo Cavalcante (2001), a Educação Biocêntrica – a mais nova teoria inserida na chamada Tendência Pedagógica Evolucionária –, alia-se à Dialógica (Paulo Freire[1]), ao Construtivismo (Piaget, Vygotsky, Wallon, Emília Ferrero e Ana Teberosky) e ao Holismo (Pierre Weil e Roberto Crema).
A Tendência Pedagógica Evolucionária apresenta as seguintes características, segundo Cavalcante (2001: 38):
- compromisso com a vida: solidariedade com uma nova visão ético-política;
- busca a integração do ser humano com o Universo – cada parte do sistema contém informações do sistema completo.
- reeducação afetiva da vida e elevação do nível de consciência e desenvolvimento moral e ético;
- integração das ciências com as tradições, as artes, as religiões e a filosofia;
- novo código ligando mente ao coração, à sensação, à intuição, ao pensamento e ao sentimento;
- diálogo, codificação, decodificação e problematização da situação para compreensão do “vivido” até chegar ao nível mais crítico da realidade;
- cultivo das energias organizadoras e conservadoras da vida;
- compreensão de que tudo está em movimento, em constante fluxo de energia, em processo de mudança.
A Educação Biocêntrica, ainda para Cavalcante (2001), é reconhecida por:
- objetivar a reeducação da vida, ampliação de consciência, através do cultivo das energias organizadoras da vida e do desenvolvimento da inteligência afetiva;
- ter como referência, para o vínculo impulsionador das estruturas cognitivas, a vivência, os instintos e a expressão dos potenciais genéticos;
- realizar o fortalecimento da função de conexão com a vida;
- ser reflexiva e vivencial;
- propiciar o fortalecimento da pessoa como um todo;
- tomar a vida como referência para a construção do conhecimento, através da relação consigo mesmo, com o outro e com o ambiente.
[1] Paulo Reglus Neves Freire (1921 – 1997) nasceu em Recife/PE. Formou-se como advogado, profissão que nunca exerceu. É ainda considerado o pensador pedagógico mais influente do mundo no final do século XX. Contribuiu essencialmente com a educação popular a partir de método por ele criado com o qual, inicialmente, alfabetizou 300 adultos em 45 dias. Seu trabalho é considerado importante por defender uma pedagogia em favor dos oprimidos com a formação de uma consciência crítica libertadora (Santos, 2003).
Duas práticas pedagógicas importantes
Para a construção de uma organização biocêntrica, dentre os muitos conceitos que contribuem para um espaço de aprendizagem consonante com a educação biocêntrica, duas práticas pedagógicas, que aliadas aos princípios no tópico abaixo apresentados apresentados, são de essencial importância para o consultor, pelo líder ou pelo facilitador estimulando-as em seu grupos:
- Autonomia
Segundo Freire (1996), ensinar não é transferir nem depositar conhecimento no outro. Ensinar é uma ferramenta importante para a prática educativa e somente atinge seu objetivo quando visa a inserção crítica, social, cultural e política dos ensinandos, de modo a proporcionar-lhes autonomia. Daí sua afirmação de que ensinar não é transferir conhecimento (de quem conhece para quem não sabe). É, antes de tudo, criar possibilidades para a sua produção ou a sua construção.
Para este mesmo autor, é na construção crítica e contextual, com assuntos que tenham sentido na vida do aprendiz, que o ensinante[1] “se forma e re-forma ao formar e quem é formado forma-se e forma ao ser formado... quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender” (Freire, 1996: 22) e, concluindo, afirma que “o ensinado que não foi apreendido não pode realmente ser aprendido pelo aprendiz”, ou seja, o aprendiz deve ter condições de recriar ou refazer seu aprendizado.
Ainda segundo este autor, a comparação, a repetição, a dúvida rebelde, a constatação, a curiosidade não facilmente satisfeitas devem ser sempre estimuladas como energias propulsoras da força criadora. O ensinante deve criar meios para que se estabeleça no ensinando a curiosidade permanente e a reflexão crítica do conhecimento que deve ser estabelecido dentro de uma relação processual entre teoria e prática – “o exercício da curiosidade a faz mais criticamente curiosa” (Freire, 1996: 83).
Essa prática do ensinar curioso e crítico que almeja o saber apreendido e não apenas aprendido, exige reflexão e adoção de atitudes por parte do educador que servir-lhe-ão de essência para ensinar o ensinando a olhar o mundo à sua volta e que, ao percebê-lo em sua realidade, dele se aproprie. Ensinar exige, antes de tudo, ética para um pensar certo, com a corporeificação das palavras pelo exemplo. (Freire, 1996)
Freire (1996: 35) também enfatiza que ensinar exige risco, aceitação do novo e rejeição a qualquer forma de discriminação. Para este autor, pensar certo é poder arriscar, aceitar o novo sem medo e não recusar o velho apenas por ser velho, mas apenas por ter sido superado: “o velho que preserva sua validade ou que encarna uma tradição ou marca uma presença no tempo continua novo”. É também rejeitar qualquer prática preconceituosa de raça, de classe, de gênero que ofenda a substantividade do ser humano e negue radicalmente a democracia. Portanto, educar, é proporcionar condições que permitam o desenvolvimento da autonomia.
- Afetividade
Para Henri Wallon[2] a construção do eu depende essencialmente do outro e as emoções têm papel preponderante no desenvolvimento da pessoa, pois é por meio delas que a pessoa exterioriza seus desejos e vontades. (Santos, 2003)
Heloysa Dantas, citada por Santos (2003: 31) assim fala sobre emoção: “a emoção é altamente orgânica, altera a respiração, os batimentos cardíacos e até o tônus muscular, tem momentos de tensão e distensão que ajudam o ser humano a se conhecer”.
Izabel Galvão complementa: “a emoção causa impacto no outro e tende a se propagar no meio social” (apud Santos, 2003: 31).
O educador biocêntrico expressa sua afetividade aos educandos de maneira incondicional, fomentando-a em cada um do grupo, de modo a obter abertura para um maior desempenho na prática educativa. É possível ensinar e aprender com alegria como FREIRE nos alerta: "o espaço pedagógico é um contexto de aprendizagem democrática” (1996: 97).
Colocar alegria no espaço pedagógico não significa descuidar da rigorosidade metódica. A curiosidade rigorosa deve ser sempre estimulada com o entendimento de que “uma das condições necessárias a pensar certo é não estarmos demasiados certos de nossas certezas” (Freire, 1996: 27).
O amor ou a afetividade podem caminhar juntos com a formação científica, como afirma Freire: "a prática educativa é tudo isso: afetividade, alegria, capacidade científica, domínio técnico a serviço de mudança” (1996: 143).
A vivência da afetividade atua biologicamente no ser e resulta das protovivências adquiridas enquanto bebê e, daí em diante, das vivências da pessoa, aliadas à integração córtico-diencefálica, sendo canalizada para: o amor incondicional, a compaixão, a ternura, a solidariedade, a amizade e para o altruísmo, como se observa no Quadro 3 - Esquema da Afetividade, apresentado ao final deste Blog.
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[1] Conceito utilizado por Paulo Freire para a concepção do professor enquanto agente de facilitação do processo de construção do saber contextual e crítico pelo ensinando (Freire, 1996)
[2] Paris, França (1879 – 1962). Graduou-se em Medicina, Psicologia e Filosofia. Dedicou-se a conhecer a infância e os caminhos da inteligência nas crianças. Contribuiu para importantes reformas do sistema educacional na França. (Santos, 2003)
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Fonte: SAMPAIO, Irene Nousiainen. Organização Biocêntrica - emergência de um novo paradigma na administração. Fortaleza, 2005. 116 p. Monografia (Especialização em Educação Biocêntrica - A Pedagogia do Encontro) – Universidade Estadual do Ceará.
Princípios essenciais
Os princípios da Educação Biocêntrica, a seguir explicitados, são de essencial importância para que se estabeleça uma coesão circular saudável na organização biocêntrica.
Ressalto aqui a separação apenas didática entre a organização e a vida das pessoas fora dela (dimensões relacionais integradas: biológica, física, familiar, social, cultural e religiosa), pois dentro do conceito complexo de redes integradas, como já tratado anteriormente, suas vidas estão relacionadas entre si e com a vida organizacional como um todo, dentro e fora dela e, portanto, uma modifica a outra (vide quadro 4 - Cuidados saudáveis com os vínculo.
O educador biocêntrico deverá tê-los apreendido conceitualmente para que possa mediar o ensino-aprendizagem pautado, de fato, no diálogo vivencial e pleno que liberta, no encontro amoroso com o outro e um profundo respeito a tudo que existe - à vida.
A Educação Biocêntrica tem sua essência primordialmente, em contraposição ao paradigma antropocêntrico sobre o qual estão erigidas as ciências ditas modernas, no paradigma do princípio biocêntrico, que, segundo Toro, “tem como referência imediata a vida, e se inspira nas leis universais que conservam os sistemas vivos e que tornam possível sua evolução” (2002: 50).
Rolando Toro considera o princípio biocêntrico um ponto de partida para um novo olhar ao mundo, estabelecendo-se como estruturante das novas ciências do futuro, marcando dessa forma, uma profunda e complexa mudança de visão de mundo – a vivência de uma mudança de época como explicitado em capítulo anterior deste trabalho.
A importância do princípio biocêntrico enquanto paradigma dá-se na concorrência para uma mudança estrutural do nosso modo de viver, uma vez que proporciona uma mudança existencial de sentir-se e de estar no mundo aqui-agora e não puramente da visão intelectual de mundo, do ponto de vista da racionalidade. A subjetividade ganha importância e alia-se à objetividade, trazendo à luz o ser humano inteiro enquanto singularidade inserida na teia da vida, cultivando as energias potencializadoras, organizadoras, conservadoras e dinamizadoras da vida.
Esse novo jeito de viver a vida proporciona no ser humano mudanças radicais, uma vez que percebe o universo como um sistema vivo, composto de uma rede de sistemas vivos diversos intra e interconectados, compreendendo tudo que existe, conforme explicitado por Toro:
O reino da vida abrange muito mais que os vegetais, os animais e o homem. Tudo que existe, dos neutrinos ao quasar, da pedra ao pensamento mais sutil, faz parte deste sistema vivo prodigioso. Segundo o princípio biocêntrico, o universo existe porque existe a vida, e não o contrário (2002: 51).
A partir desta visão, a pessoa buscará cuidar de si, do outro e do meio, compreendendo, afinal, que mesmo que o ser humano consiga destruir-se a si enquanto espécie, a vida continuará.
Portanto, sob esse enfoque, as organizações devem ser percebidas como complexos sistemas vivos. A vida das pessoas e a vida da organização são igualmente privilegiadas, compreendendo-se ser esta um todo que se expressa a partir da existência de uma unidade complexa de diversidades/singularidades – as pessoas.
Uma organização comprometida com a vida valoriza as pessoas como seres autônomos, criativos, singulares, pois que são diversas entre si. Incentiva a saúde individual e do grupo, a melhoria e o fortalecimento dos vínculos entre as pessoas e destas com a organização como um todo e vice-versa.
A instituição/empresa biocêntrica conta com líderes orientados por valores humanos e de vida, de modo a dinamizar as potencialidades saudáveis de cada um. Assim, são privilegiados a vitalidade, autonomia, desejo de realização, criatividade, fortalecimento de vínculos afetivos saudáveis, vida interior construtiva e libertadora.
3.3.2. Princípio da progressividade
A progressividade consiste no respeito ao movimento interior de cada pessoa. É um dos mais importantes princípios preconizados pela Educação Biocêntrica, pois revela o cuidado consigo e com o outro, tão importante para o fortalecimento dos vínculos internos relacionais (não hierarquizados) com o meio: educante-educando, educando-educandos, educando-meio social.
Este princípio revela-se em cuidado necessário com o ritmo interno da própria pessoa, de modo a possibilitar a corporeificação progressiva, de novos valores, conceitos e teorias, conforme seus próprios avanços. Dessa forma, com o cuidado amoroso, o aprendizado se dá de forma progressiva a qual avança conforme vão se ampliando os limites do educando, promovendo um aprendizado, de fato, assimilado, no sentido de corporeificado em todas as dimensões da pessoa.
Segundo Almeida (Apud Góis, 2002: 69), a vivência se dá de duas formas:- vivência epistemológica – possibilidade de a vivência levar ao conhecimento ou fazer-se conhecer, denotando redução;- vivência ontológica, totalizadora, que trata da vivência mesma do Ser.
Almeida assim define vivência:
A vivência é. A vivência tem sentido, a vivência não separa minha alma da alma cósmica, como fazia o paradigma cosmocêntrico; a vivência não afasta meu corpo do meu espírito como fazia o paradigma teocêntrico; a vivência não hierarquiza a criação, não me torna dicotômico, como faz o paradigma antropocêntrico. A vivência me funde com a Vida, me faz Biocêntrico. (...) A vivência é Ser. Afirmar o SER é ontológico, porém ontologia da vivência: simplesmente afirmando que o SER, que é auto-evidente, tem sentido em si mesmo, o ser estrutura estruturante: Bios (Almeida apud Góis, 2002: 70 e Andrade, 2003: 33).
Na visão ontológica e biocêntrica de Góis (2002: 69), a vivência é "viver o estar-aqui, do instante, do corporal e do estético, da identidade que expressa a vida em sua singularidade, imediaticidade e beleza". É a presentificação do viver cada instante de forma intensa, inteira.
A dinâmica do processo ensino-aprendizagem que busca fornecer meios legítimos, tanto para o educando quanto para o educador, enquanto integrantes de um mesmo sistema proposto pela Educação Biocêntrica, parte também da vivência como vínculo impulsionador das estruturas cognitivas que levam à conscientização com enfoque na construção do conhecimento crítico – a tomada de consciência –; nos instintospotenciais genéticos[1], fortalecendo a função de conexão com a vida. como anteriormente explanado; e, na expressão dos
Através de vivências de amor, harmonia e prazer de viver, busca-se proporcionar uma aprendizagem legítima consolidando, não de modo estático, mas essencialmente dinâmico e processual, o conhecimento construído, a partir de elementos cognitivos e vivenciais. A vivência não está subordinada à consciência, porém esta se encontra enraizada na própria vivência. (Góis, 2002).
3.3.4. Princípio da auto-regulação
A auto-regulação é um princípio latente em todos os seres vivos. Ela possibilita a perfeição dos sistemas homeostáticos dos seres vivos, estando intimamente relacionada ao equilíbrio interno, de altíssimo grau de precisão, direcionado para a conservação da unidade orgânica.
Nos grupos, a auto-regulação pautada no conhecimento de si mesmo e de seus limites leva ao respeito a si mesmo enquanto singularidade.
3.3.5. Princípio da transmutação de valores
A ressignificação do modo de perceber o mundo e de nele atuar pode acontecer com a transmutação de valores que pode ser desenvolvida por meio de vivências de transcendência, do diálogo e do encontro com o outro.
3.3.6. Princípio da dinamização do saudável
Atuar na parte sã da pessoa e de situações, potencializando nelas o que há de saudável e de vida, é um dos princípios mais importantes da Educação Biocêntrica. Sai o foco no que está doente ou errado, para o que tem possibilidade de ser dinamizado para a saúde do ser, ou ainda, para soluções saudáveis de situações críticas.
3.3.7. Princípio da transvaloração cultural
Também chamada de transmutação de valores ou reculturação, a transvaloração cultural permite um novo olhar sobre a cultura, por meio do repensar os interesses variados que permeiam as ideologias existentes erigidas, no decorrer da história.
Promove-se, então, a ampliação dos conhecimentos culturais induzindo o respeito à diversidade cultural, à diferença. São propostas novas perspectivas culturais, sociais e históricas, a partir da percepção de si mesmo como sujeito que participa ativamente da construção social da história e da cultura aqui-agora, consciente dos contextos ideológicos. (Cavalcante, 2001).
É por meio da problematização da realidade contextualizada, da abertura a novos valores, conceitos e teorias que se pode transvalorar a cultura, saindo do enrijecimento, da fossilização que adoece e mata, para a flexibilização, a criatividade, a inovação, a mudança sempre saudavelmente agregadora da realidade entendida como processo em prol da vida.
3.3.8. Princípio da reciprocidade
A partir do princípio da reciprocidade, estimula-se o encontro dialógico, tanto no plano corporal como no verbal, que resulta no crescimento humano existencial e teórico, por todo o seu tempo de existência, respeitando-se os limites de cada pessoa. O diálogo com cada pessoa do grupo é um importante meio para que o relacionamento intra-grupal seja saudável.
3.3.9. Outros princípios importantes
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[1] Toro (2002) defende a importância de se estimular o desenvolvimento genético durante toda a curva da existência da pessoa, pois para o mesmo “a totalidade do nosso potencial genético é contida em cada uma de nossas células; a natureza, para preservar a informação, a reproduz milhões de vezes. Certos genes permitem, ou impedem, a expressão de determinadas características. Assim, por exemplo, a inteligência, o tom de voz, a sensibilidade cenestésica, dependem da ação conjunta de genes diversos. No processo de expressão genética, algumas potencialidades permanecem em silêncio, pois não encontram os eco-fatores específicos necessários para que elas se manifestem. Ademais, as potencialidades genéticas podem ser consideradas como elementos altamente determinados que são dotados de uma grande estabilidade, cuja expressão dependerá das condições oferecidas seja pelo ambiente externo, seja pelo próprio organismo".



