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quinta-feira, 18 de março de 2010

MENSAGENS DE ROLANDO TORO ANTES DE PARTIR

Reproduzo a seguir duas mensagens enviadas pelo criador da Biodança, Rolando Toro, escritas por ele dois dias antes de partir. Ele havia confirmado presença no II Encontro Nordestino de Educação Biocêntrica e Cidadania, que teve como tema: Aprendizagem e Desenvolvimento na Teia da Vida. O Encontro realizou-se em Fortaleza/Ceará, neste fim de semana, entre os dias 11 e 14 de março.

Em virtude de problemas de saúde, Rolando escreveu suas duas últimas mensagens para o povo da Biodança, especialmente de Fortaleza, do qual com muita alegria e gratidão faço parte, e que foram levadas a público durante o evento:

MENSAJE A LOS PROFESORES Y ALUMNOS DE BIODANZA DE FORTALEZA

Amados amigos de Biodanza,

Con mucha nostalgia y ternura me dirijo a ustedes, por quienes siento Ia más alta consideración profesional y humana.

Llegará en el futuro Ia oportunidad de verlos y abrazarlos personalmente.

Les estoy enviando un mensaje de admiración y cariño junto con Ia gran esperanza de que sigan sembrando Ias semillas de humanidad que nuestro mundo tanto necesita.

La Biodanza en Fortaleza tiene una larga historia de inteligencia y amor.

Nuestra Ruth y Cesar, así como mis otros amigos maravillosos permanecen en mi corazón.

Les envio un texto reciente sobre Ia misión del profesor de Biodanza y su papel en el mundo.

La acción redentora que ustedes realizan se expande actualmente con dimensión mundial.

Nuestra tarea no es simplemente ejercer una profesión sino realizar Ia misión de inducir un cambio interior de respeto y profunda solidaridad humana.

Rolando Toro
Santiago de Chile, 14/02/2010


EL PROFESOR DE BIODANZA


La formación del Profesor de Biodanza consiste esencialmente en descubrir una misión, Transmitir el estado de gracia, mostrar nuevos caminos para eiercer el amor v despertar Ia conciencia iluminada.

Frecuentemente las personas Ilevan una identidad equivocada. Reducen su existencia a Ias exigencias de un ambiente empobrecido cuando no toxico.

Si los Hombres se sienten insignificantes, sus acciones son insignificantes.

La autoimagen de inferioridad crea monstruos, Muchas personas no saben que Ilevan dentro una divinidad.

La naturaleza esencial de Io humano es Ia eterna celebración de Ia vida. Esta condición le revela una visión iluminada sobre si mismo y sobre el mundo.

La iluminación interior no es un privilegio personal. Estar iluminado para si mismo no basta. Nuestra luz es para iluminar a los que permanecen en Ia oscuridad, para poderlos ver en su esencia y transmitirles Ia luz.

Vivir, es una oportunidad muy especial, Ia oportunidad de percibir "Io humano eterno" y sentir en el cuerpo el placer de Ia sacralidad de Ia vida.

Hay en nosotros algo más grande y maravilloso de Io que pensamos o hacemos.

Si no conectamos con ese fondo eterno sintiendo que somos pobres mortales Ilenos de dificultades nuestra vida se torna insignificante.

Adquirir esa conexión con el esplendor de Ia vida es esencial. En realidad Ia iluminación, de Ia que se habla frecuentemente como un fenômeno excepcional lleno de connotaciones místicas misteriosas y ocasionales, es una condición natural de todos los seres humanos. Se trata de un cambio de visión de nosotros mismos y del significado de Ia vida. Es un nuevo modo de vincularse a los otros y enfrentar Ias dificultades como parte de nuestro trabajo alquímico, aceptando Ia abundância y Ia belleza que genera el amor.

Somos mucho más que Io que generalmente pensamos. Somos criaturas cósmicas capaces de amar y crear belleza.

Si no asumimos grandeza nos transformamos en asesinos, y nuestra vida se torna insignificante.

Para mi alegria el pueblo de Biodanza de Fortaleza, Ileva adelante Ia tarea más alta que puede abarcar nuestra existencia: Devolver al mundo Ia sacralidad de Ia vida.

Rolando Toro
Santiago de Chile, 14/02/2010

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

ROLANDO TORO PARTIU ONTEM

Mensagem da comunidade biodanceira no mundo:
(por favor, difundir em toda a nossa comunidade)

A nossa querida Família de Biodança:
Com grande pesar comunicamos a partida de Rolando Toro Araneda nosso querido bisavô, avô, pai, esposo, irmão, amigo, mestre, companheiro, criador de nossa Grande Roda de Biodança, seu grande poema.

O acompanharemos nesta quinta feira, 18 de fevereiro desde às 14:00 às 21.00 horas em sua viajem a dançar com as estrelas. Em Diego de Almagro 5326, metro Príncipe de Gales Comuna de Ñuñoa.

O devolveremos ao grande abraço de sua amada Mãe Terra, no Cemitério Parque del Recuerdo Av. Américo Vespucio 555 (Chile) na sexta feira, dia 19 de fevereiro durante a manhã em horário a confirmar.

Informações (Chile):

Pedro Labbe Toro, Tlf: 7-626-8703
Mónica Siré, Tlf: 9-689-7212
Berta Garcia, Tlf: 9-895-6045

*******************
Minha homenagem a Rolando...

Rolando Toro Arañeda, criador da Biodança e das bases da Educação Biocêntrica, não resistiu ao tratamento quimioterápico e faleceu ontem, 16/02 no Chile.
Deixa um rico legado para um mundo melhor, mais leve, mais simples, amoroso, humano e vívido. Em suas idéias encontrei sentido para a minha vida de pessoa muito sensível. Em suas criações encontrei consonância com minhas idéias que antes não tinham lugar. Em suas danças encontrei no mundo a beleza da vida de minha vida interior.

Ninguém é perfeito. Ninguém é Deus. Rolando foi um homem normal, mas com a grande diferença do olhar...seu olhar sobre as pessoas e sobre a vida nos devolveu a integração, a unidade de tantas infinitas e diversificadas partes de nossas vidas. E mais, nos devolveu a beleza amorosa, lúdica, lírica, apaixonante e transcendental de vivermos a vida. Sou profundamente grata a Rolando por sua dedicação a nos possibilitar uma vida amorosa e feliz...por tudo o que ele entusiasticamente criou, plantou, cuidou e compartilhou com o mundo. Ele fez a diferença!

Um pouco sobre Rolando Toro e suas criações:

A história da Biodança está intrinsecamente vinculada à história de Rolando Toro. Quando eu ainda estava estudando na Escola de Biodança fiz um apanhado dos muitos dados, informações e relatos cujas partes encontravam-se em diferentes fontes. O resultado compartilho novamente aqui com vocês, como minha homenagem a este importante legado, criado e desenvolvido por Rolando Toro ao longo de anos de estudos e experimentações para um ser humano mais humano, mais integrado à vida, mais leve, mais feliz, resultando na criação da Biodança, a qual contou com a importante contribuição de alguns estudiosos, notadamente Cézar Wagner no Brasil. Outra importante contribuição de Rolando Toro foi a criação e desenvolvimento da conceituação do princípio Biocêntrico, paradigma essencial da Biodança, que originou o desenvolvimento da Educação Biocêntrica voltada para a pedagogia do encontro, da vida saudável, integrada e feliz, cujo desenvolvimento teórico ainda encontra-se em processo e tem recebido importantes contribuições, principalmente da Psico-pedadoga Ruth Cavalcante, também no Brasil.


UM OLHAR SOBRE ROLANDO TORO E COMO ELE DESENVOLVEU SUAS CRIAÇÕES

HISTÓRIA DA BIODANÇA
Por Irene Nousiainen
Publicado neste blog em 08/05/2007, sincronicamente no Dia da Mulher.

A Biodança, abordagem de facilitação do desenvolvimento humano, foi criada por Rolando Toro a partir de um movimento profundo em favor da vida.
O seu modelo teórico e metodológico vem sendo construído nos últimos quarenta anos, tendo seu marco inicial em 1965, quando se deu o início de sua sistematização por Rolando Toro.

A seguir apresento alguns dos inúmeros momentos importantes que vão tecendo a história da biodança e extraídos de diversas fontes que estão citadas na coluna ao lado deste blog.

01.01. Nascimento, sistematização e difusão da Biodança - uma história de muitas histórias.

Rolando Mario Toro Arañeda, nasceu em 19 de abril de 1924, em Concepción no Chile. Foi psicólogo, antropólogo, poeta e pintor, dentre outras muitas qualidades.

Formou-se como professor de ensino básico na Escola Normal ”José Abelardo Núñes”, Santiago, Chile, no ano de 1943. Desempenhou sua docência nas cidades de Valparaíso, Talcahuano, Pocuro e Santiago (Chile), entre os anos de 1944 a 1957.

Tanto no Chile como em Buenos Aires, para onde mudou-se aos 47 anos, o trabalho de Rolando Toro esteve voltado para as artes: pintura, poesia, fotografia, dança e teatro. Sua crença na possibilidade de um paraíso compartilhado o levou a buscar a fonte do "amor original", do amor ao próximo, com a essencial compreensão de um amor que inclui a dimensão corporal ativa - a carícia.

Buscou, portanto, desenvolver suas idéias sobre a "possibilidade do contato puro com a realidade viva, por meio do movimento, do gesto e da expressão dos sentimentos", utilizando a música, enquanto linguagem universal, a dança - integrando corpo, alma e a expressão do ser, plena de sentido, de felicidade, ternura e força. Como diz o próprio Rolando: "a biodanza é um modo de convivência com a beleza...em que o contato é essencial". (Toro, 2002: 9).

Ele sempre foi um autodidata e estudioso do desenvolvimento humano e de sua expressão, característica que mantinha até hoje, com seus 85 anos. Buscou sempre vivenciar profundamente o trabalho científico, acadêmico, artístico, bem como as experiências místicas não-religiosas, essenciais para a formação de todo o seu pensamento.

Suas experiências com músicas e danças em hospitais psiquiátricos, em meados da década de 60, objetivavam a experimentação de diversas técnicas de desenvolvimento humano para uma "humanização da medicina". Essas técnicas envolviam psicoterapias de grupo, arte-terapia, psicodrama, etc.

Nessas experimentações Rolando Toro observou que alguns pacientes, no início do trabalho, entravam em transe, surgindo modelos universais de expressão relacionados às diversas emoções. Essas observações o levaram à conclusão de que, se a música é capaz de promover este estado, então ela exerce influência no psiquismo e, portanto, ela seria capaz de promover bons resultados.
Foi assim, então, que Rolando Toro pôde estruturar seu trabalho, de modo a relacionar música, movimento e situações de contato e de continente afetivo formando uma unicidade.

Rolando, então, criou algumas danças e exercícios a partir de gestos naturais do ser humano, com finalidades precisas, a fim de estimular a vitalidade, a criatividade, o erotismo, a comunicação afetiva entre as pessoas e o sentimento de pertença ao universo, à totalidade.

A pesquisa científica que desenvolveu sobre respostas neurovegetativas demonstrou que determinados exercícios promoviam uma ação reguladora em nível visceral, dinamizando ou o sistema simpático-adrenérgico ou o parassimpático-colinérgico. Observou-se, também, que outros exercícios "estimulavam emoções específicas que produziam efeitos altamente significativos sobre a percepção de si mesmo e do próprio estilo de comunicação afetiva com as outras pessoas". (Toro, 2002: 10). A estruturação dessa concepção originou a Psicodança, embrião da hoje chamada Biodança.

A partir de então, a Psicodança foi sendo difundida e, em 1970, Rolando foi convidado a criar a primeira disciplina de Psicodança na Pontifícia Universidade Católica do Chile, onde o mesmo ocupava a cátedra de Psicologia da Expressão no Departamento de Estética.

Nesse período, acompanhou-o na pesquisa, sua companheira Pilar Acuña, responsável por dar à Biodança um caráter poético.

Com o desenvolvimento de seus estudos sobre Psicodança, Rolando Toro se deu conta de que sua estrutura poderia encontrar seus fundamentos nas ciências que tratam da vida e chegou à conclusão de que a essência do desenvolvimento humano não está nos aspectos psicológicos, e sim, nos biológicos. Havia, também, o fato de que o termo Psicodança, e não sua metodologia, já era utilizada no Psicodrama, por Jaccob Moreno, seu criador, em 1913, enquanto um de seus instrumentos. O que gerava uma certa confusão entre estas duas linhas teóricas diversas.

Em 1971, já em Buenos Aires, onde passou a residir, Rolando Toro aprofundou ainda mais seus trabalhos com a dança, formalizando, então, o modelo operatório constituído de dois eixos (vide figura ao final do blog).

Em 1976, a Biodança chega ao Brasil - em Brasília, Belo Horizonte e São Paulo. Nessa época, Rolando Toro incorporou ao modelo teórico linhas de vivência (movimento ascendente espiralado) e apresentou os primeiros conceitos de teoria da vivência e protovivências (vide figura ao final do blog).

No Brasil, em meados da década de 70, em meio a um clima de libertação de toda repressão sexual e de expressão vivenciada em anos anteriores, a Biodança ganhou força por se apresentar como uma abordagem calma, sem produção de estresse emocional, com comunicação leve, aberta e direta, trabalhando com grupos de pessoas e utilizando a música e o movimento para a expressividade do prazer (de vida, da sexualidade, criativa, afetiva e transcendente) das pessoas, ao contrário das psicoterapias.

Em 1978/79, resultando de vivências, reflexões e discussões sobre a Psicodança, entre Rolando Toro, Cecília Luzzi - sua então companheira que o ajudou a conduzir aperfeiçoamentos técnicos sutis e que desenvolveu sua aplicação junto a crianças - e, também, com contribuições de colaboradores mais chegados, a palavra Psicodança foi substituído por Biodança. Oficialmente, esta mudança aconteceu em março de 1979 no II Encontro de Biodança e III Assembléia Latino-Americana de Biodança, realizado em Belo Horizonte.

Esta mudança aconteceu essencialmente pela concepção diferente da Biodança sobre o ser humano, a sociedade e a vida, que parte do entendimento de que a vida é o princípio de tudo que existe. Foi uma questão mesmo de paradigma. A Biodança essencialmente, rompe com a visão antropocêntrica e desintegrativa de mundo linear, desenvolvendo uma compreensão de mundo biocêntrica: a vida não existe em função do ser humano, mas, o ser humano existe porque nele há a vida. A Biodança, segundo Rolando Toro é uma conjunção de arte, ciência e amor, conforme expressou em 1979:

"A base conceitual da Biodança provém de uma meditação sobre a vida, ou talvez do desespero, do desejo de renascer de nossos gestos despedaçados, de nossa vazia e estéril estrutura de repressão, Poderíamos dizer com certeza: da nostalgia do amor. Mais que uma ciência é uma poética do encontro humano, uma nova sensibilidade frente à existência."
A segunda metade da década de 70 e início dos anos 80, ainda fortemente marcada pela ditadura militar no Brasil, foi palco da perseguição à Biodança e a seu criador, Rolando Toro. Os Conselhos de Psicologia, principalmente da Regional Nordeste, no período de 1979 a 1984, questionaram e perseguiram a Biodança e Rolando Toro.

Roberto Crema, convocado por duas vezes ao CFP - Conselho Federal de Psicologia do Brasil, conseguiu esclarecer a diferença entre Psicologia e Biodança, usando argumentos sobre o Código e da Lei de Regulamentação do profissional de psicologia. À luz da lei, a Biodança jamais poderia ser confundida com a Psicologia.
Mas a luta por mercado e a disputa de poder entre psicólogos da época levaram o CFP a denunciar Rolando Toro com base no Estatuto do Estrangeiro, criado pela ditadura, com a finalidade de expulsar os padres estrangeiros ligados à Teologia da Libertação por ir de encontro aos interesses da elite capitalista e do governo militar da época. Rolando foi então detido em 1982, por quatro horas, sendo solto por encontrar-se com o passaporte validado.

Em sua proposta, a Biodança radicalmente contesta toda e qualquer repressão sexual, levando os "moralistas" e "guardiões da moral" a tentarem de toda forma abortá-la. Alguns outros ainda contribuíram para estabelecer confusão quanto aos propósitos da Biodança, realizando "festinhas" como sendo sessão de Biodança - conhecidas como "Biodança do oba-oba".

A Biodança no Brasil foi muito perseguida durante o final da década de 70 e início dos anos 80. Uma grande parte de seus facilitadores eram psicólogos e muitos sofreram ameaças dos conselhos de psicologia estaduais e do federal, inclusive de perda de diploma. Em meio a esse cenário, muitos a deixaram, chegando a quase esvaziá-la. Ainda assim, três encontros nacionais foram realizados com palestras de Rolando Toro, quando também facilitou sessões de biodança para alunos - um em São Paulo, outro em Belo Horizonte e o terceiro em Brasília.
Dado à conclusão que alguns chegaram sobre sua potência, em abril de 1980 foi definida uma estratégia inicial para a Biodança no Brasil. Hoje já existe uma estratégia mundial dado seu alcance em outros países.

Foi naquele ano que várias pessoas integraram-se à Biodança e que com ela até hoje trabalham. Dentre elas destaca-se o importante trabalho desenvolvido por Cezar Wagner, Ruth Cavalcante e de alguns didatas e facilitadores, para a sistematização e difusão da Biodança no Brasil. Ressalte-se também a forte orientação social da Biodança no Ceará devido aos ideais da Ruth, do Cezar e de outros ativistas sociais. Importante também, tem sido as atividades que vem sendo desenvolvidas por Ruth Cavalcante, uma das responsáveis pela elaboração da teoria da Educação Biocêntrica (surgiu no bojo da Biodança, a partir da visão biocêntrica de mundo, e que encontra-se em desenvolvimento) e sua difusão, inclusive por meio da academia, pós-graduando vários especialistas oriundos de quatro turmas.

Em maio de 1980 Rolando Toro, até então residente em São Paulo, de onde chegou a ir para Brasília, mas, depois retornando a São Paulo, veio para Fortaleza para desenvolver o movimento da Biodança, trazendo a Biodança ao Ceará. Àquela época, alunos de Psicologia organizaram uma turma para um curso de Biodança ministrado por Rolando. Rolando, então, residiu em Fortaleza por quatro meses, tempo que realizou diversas viagens a João Pessoa, Natal, Recife, São Luiz, Salvador e Teresina, sempre acompanhado de um advogado para defendê-lo dos ataques dos conselhos de psicologia.

Em 26/05/1980, em Fortaleza, foi realizada reunião para elaboração de toda uma estratégia para o desenvolvimento da Biodança em diversas partes do Brasil, marcando o início da segunda fase da história da Biodança. Sua consolidação de fato foi viabilizada por sua proposta séria, conseqüente, profunda e organizada.

O início de sua implantação deu-se por ocasião de uma maratona de Biodança realizada por Cezar Wagner em dezembro de 1980, na cidade de Recife/PE, que marcou o início do Grupo Pernambucano de Biodança.

O primeiro e importante evento desta fase aconteceu por ocasião do Congresso de Biodança, realizado de 28/01 a 02/02/1981 em Fortaleza, sendo este, na verdade, além de IV Encontro Nacional de Biodança, também, I Congresso Nacional e I Congresso Latino-Americano de Biodança.

Nesse Congresso foram tratados diversos assuntos como: reavaliação das ações de Biodança; criação de grupos e/ou associações; programação dos encontros nordestinos; desenvolvimento sistemático da ação social; formação de facilitadores (carências, possibilidades e viabilidade que resultou na criação no ano seguinte da Escola Nordestina de Biodança). Todos os assuntos estavam relacionados à construção do movimento, à participação das pessoas, à organização, à profundidade, à preocupação científica e social, sendo tudo discutido e resolvido em grupo.

A ALAB enquanto entidade representativa, se impôs a partir de 1981, sendo sua gestão até 1985 conduzida por Rolando Toro como Presidente e por Cézar Wagner, Vice-Presidente, tendo exercido ações essenciais para a Biodança em toda a América Latina alcançar o grau de maturidade que hoje detém. Ressalte-se os períodos de 1989 a 1990, que contou com Maria Lúcia Pessoa na Presidência e com Ruth Cavalcante na Vice-Presidência responsáveis pela articulação necessária para estruturação, organização e criação das escolas de biodança e, de 1991 a 1995, com Cezar Wagner na Presidência.

Essas duas gestões resultaram na integração e expansão da Biodança com a realização de diversos eventos, publicações, sistematização da Teoria da Biodança nos Tomos de Biodança e na publicação dos Catálogos de músicas e exercícios, que levaram à unificação do programa de formação de todas as escolas de biodança.

Nesse esforço de fortalecimento e difusão da Biodança, em março de 1981, foi realizada uma aula aberta sobre Biodança, num encontro de psicoterapia, ocorrido em Recife, e para um grupo de psicólogos de João Pessoa.

Em 1982 Rolando Toro estruturou o modelo operatório e o modelos das vivências em um único modelo teórico.

Também em 1982, foi realizada em Fortaleza, uma mesa redonda sobre os diversos aspectos da Biodança da qual participaram um antropólogo, um advogado, um educador, uma psicóloga e um representante do Conselho Estadual de Psicologia, o qual acabou não tendo mais argumentações de rebate às colocações feitas sobre a Biodança.

Em 19 de outubro de 1982, foi criada, por Rolando Toro e Cezar Wagner, a primeira escola de biodança, a Escola Nordestina de Biodança - ENEB, com sede em Fortaleza. A escolha de Fortaleza deveu-se à sua eqüidistância de todas as capitais nordestinas e, também, por estarem ali, à época, polarizadas as ações de Biodança no Nordeste e de boa parte do Brasil.

A ENEB resultou do esforço de muitas outras pessoas engajadas no movimento: Índio (de Recife), Ruth Cavalcante, Lia Albuquerque, Sanclair, Rosário, Terezinha Façanha, dentre tantas outras. A escola congregava todos os grupos de biodança do Nordeste. De sua primeira turma formaram-se: Ruth Cavalcante (CE), Terezinha Façanha (CE), Zulmira Bonfim (CE), Gorete (PE), Orlando Rocha (PE), Mira (PE), Tereza (PE), Cláudio (PE), Sanclair (MA) e Nádia (MA).

A Escola funcionava em forma de maratonas, realizadas a cada 45 dias, com a participação de Rolando Toro e de Cezar Wagner e congregou alunos oriundos de todos os estados do Nordeste do Brasil. Sua meta sempre foi sintetizar e consolidar a Biodança no Nordeste, transferir teoria e prática de Biodança a pessoas interessadas, tornar possível a profissionalização do facilitador de Biodança e promover a supervisão aos facilitadores licenciados de Biodança, cuja concretização foi um trabalho de muita dedicação. O modelo da Escola Nordestina para construção, organização, aprofundamento e expansão da Biodança é adotado até hoje em toda a América Latina.

Rolando Toro, por ocasião da inauguração da ENEB, em carta aos alunos da Escola assim expressou seu sentimento:
"Desde acá, después de esos días de creación y amor, mis recuerdos permanecen encendidos y mis pensamientos se dirigen hacia uds. como hilos tendidos sobre una dulce eternidad.

Quiero comunicarles mi alegría por el trabajo realizado en conjunto. Estamos creando nuevas formas de civilización, donde se restablezca el respecto por la vida, por todo lo que está ahí ofreciéndose para nosotros, los alimentos, la floresta, el mar, los amores. Aprender a percibir eso sin esfuerzo nem ansiedad. Entender que el paraíso es una forma de relación con nuestro cuerpo y com la gente.

Es verdad que estamos cautivos por un sistema de dominación creado por mentes enfermas. Dentro de ese caos de opresión y muerte, luchamos por establecer las realidades básicas de la vida: el nascimiento, la alegría, la convivencia, al Arte, todo aquello que constituye el pulsante sueño mundial de vida. Cada uno de ustedes, al hacerse presente a nuestro llamamiento, pudo conectar con lo inmediato que ofrece la existencia. Al hacerse presentes, brindaron a cada uno de los otros lo mejor de Uds. mismos.

Esta carta no podrá nunca expresar todo el amor que recebí y la confianza que Uds. delegaron en mí, en mi amigo Cezar y en todos los que contribuyeron en la génesis de la Escuela Nordestina de Biodanza. En esa Escuela se realizará la unión del corazón iluminado a la conciencia.

Receban todo mi amor"

Rolando Toro

A partir de 1983, definiu-se as bases e interrelações do modelo operatório da Biodança, passando a extrapolar os limites do grupo regular de Biodança para o estudo de experiências interiores, resultante de estudos desenvolvidos por Rolando Toro sobre vivências do medo e da coragem de enfrentá-lo, por meio de exercícios específicos de auto-expressão. A este trabalho Toro denominou de Projeto Minotauro.
Em 1984, a Biodança chega à Europa, na França, por meio de Verônica Toro (filha de Rolando) e seu marido, Raúl Terrén.

Em 1986, a dificuldade de Cézar Wagner de oferecer supervisão a todos os facilitadores licenciados no Nordeste, por conta da grande extensão da região, a Escola Nordestina de Biodança considerou ser necessário desmembrar-se em três, que assim ficou: Escola de Biodança da Bahia, Escola de Biodança de Pernambuco e Escola de Biodança do Ceará.

Em 1989, a convite dos amigos Giovanni Salvatti e Emmi Mozzetti-Monterumici para realizar um programa de difusão do sistema Biodança, Rolando Toro decidiu ir morar na Itália para implantar a Biodança na Europa. Em Paris e em Marselha contou com a colaboração de Ana Leila, também formada na Escola de Biodança em Fortaleza.

Em 1990 há algumas modificações no modelo teórico, entre elas o deslocamento da identidade que sai do eixo horizontal passando a permear todo o modelo (vide figura ao final do blog).

A sistematização da teoria da Biodança originou-se na época da Escola Nordestina, resultante de um perseverante e paciente trabalho realizado por Cézar Wagner, iniciado com o recolhimento de inúmeros textos escritos por Rolando Toro que encontravam-se espalhados por toda a América Latina nas mãos de diversas pessoas. Foi um ano de intenso e difícil trabalho. Seu trabalho de sistematização desse material reunido resultou em quinze volumes que constituíram a Teoria da Biodança.

Como material pedagógico para as escolas de biodança, foram elaborados Catálogos de Biodança a partir desses volumes e da experiência de alguns facilitadores.

Nosso país, o Brasil, é considerado o berço de desenvolvimento da Biodança por ter sido aqui o lugar em que foi amplamente aceita, reconhecida, organizada, expandida e onde sua teoria foi desenvolvida, elaborada e sistematizada.

Em dezembro de 1991 Rolando Toro retornou ao Chile para realizar uma grande maratona de Biodança, marcando o início de sua estruturação naquele país.

Com o tema Biodança, 27 anos depois, realizou-se em Fortaleza, o II Congresso Internacional de Biodança.

Em 1994 foi criada a Escola de Biodança do Piauí.

Também em 1994, o modelo teórico da Biodança é mais uma vez modificado em consonância com os estudos desenvolvidos de que há um continuum do transe entre a consciência intensificada de si mesmo e a regressão à origem (fusão com o cosmo) que, no modelo de 1990, estava representado pela consciência diminuída de si mesmo.
A Biodança vem ganhando espaço, inclusive internacionalmente, por uma estratégia mundial, num esforço de estruturação e organização. É encontrada em toda a América Latina, Europa e África.

Na Europa foram criados grupos de Biodança na Suíça com trabalhos realizados por Gorettie e Allan que tiveram sua formação na Escola Nordestina de Biodança. Mais tarde, consolidou-se a Escola de Formação na Suíça que, posteriormente, foi assumida por Nadia Robin.

Em 1997, Rolando Toro voltou a residir no Chile, de onde coordenava as atividades do movimento Biodança em todo o mundo. Criou a Escuela Modelo de Biodanza e diversos cursos, entre os quais "Curso de Actualización y Formación de Didactas de Biodanza".

No ano de 2000, foi publicada a edição italiana Biodanza e a portuguesa, no Brasil, em 2002.

O primeiro livro publicado por Rolando Toro foi Projeto Minotauro organizado por Eliane Matuk. Sua obra bibliográfica:
-La Noche - Poemas. Editorial Carmelo Soria - Santiago de Chile, 1952. (Espanhol)
- Projeto Minotauro. Abordagem Terapéutico do Sistema Biodanza, Editora Vozes - Petrópolis (RJ), Brasil, 1988. (Português)
- Éxtasis del Renacido - Poemas - 2da Edición - Editorial Galac - Caracas, Venezuela, 1992. (Espanhol)
- Tras los Pasos de Afrodita - Poemas. Editorial Oasis - Oaxaca - México, 1995 (Espanhol)
- Lo Imposible Puede Suceder - Poemas. Editorial Oasis - Oaxaca - México, 1995 (Espanhol)
- Auf Den Spuren von Aphrodite. Uberstsetzung: Susanne Okotie, Melanie Delval, Gabriele Langmeyer. Lonopono - Viena, Austria, 1997.(Alemão)
- L´Alfabeto della Vita - Poemas escritos conjuntamente con Giovanna Benatti y Nicola Franceschiello, Edición Privada, 1997 (Italiano)
- Biodanza. Editorial Rede - Como - Itália, 2000. (Italiano)
- Biodanza. Editora Olavobrás, EPV - Brasil, 2002. (Português)
- Balada del Ángel Caido - Poemas, Edición Privada, Santiago de Chile, 2005. (Espanhol)

Até seu falecimento Rolando Toro exercia o cargo de Presidente da International Biocentric Foundation, com sede na Inglaterra e fundada por ele. Juntamente com Claudete Sant'Anna, sua atual companheira, cuidavam ambos da administração e da coordenação das atividades da Biodança em todo mundo.
A visão biocêntrica de mundo resultou na elaboração do princípio biocêntrico, seu paradigma de sustentação. Essa nova compreensão de mundo vem promovendo mudanças culturais e metodológicas em várias dimensões de atuação do ser humano, influindo no mundo organizacional das empresas - melhorando qualitativamente seus processos relacionais humanos e da própria organização; na pedagogia - que originou a Educação Biocêntrica; nas atividades ligadas à saúde; e, principalmente, na atuação de cada pessoa que dela tenha conhecimento e nela se lance, tornando-se referência para possibilidades de mudanças de comportamento mais saudáveis.
 
O futuro da Biodança é incerto, como todo trabalho futuro pos-morten de seu criador, em geral, se torna uma incógnita, principalmente quando há questões de herança de direitos autorais envolvidos, muitas vezes envolvendo pessoas não comprometidas com seriedade na sua continuidade, com as bases teóricas que lhe sustentaram em algumas escolas no mundo até hoje. Saliento que essa base teórica foi de crucial importância para o desenvolvimento da Biodança e foi o que a levou ao patamar atual de seriedade e de reconhecimento onde assim se dirige. Infelizmente, há hoje duas formas de se fazer Biodança: a do "oba-oba" e a com bases científicas comprometida com a estruturação das sessões de modo que promova um melhor resultado para o desenvolvimento e integração da pessoa no mundo.
 
Polêmicas à parte, sou profundamente grata a Rolando Toro por sua genial criação que busca promover mudanças e melhorias profundas nas pessoas de forma integrativa com a vida e com tudo que existe. O estudo da Biodança e a sua vivência na Escola de Biodança e nos grupos promoveram em mim maravilhas.
 
Que sua dança de vida continue florescendo!
 



FONTE: Homenagem do Grupo Biodança é Vida (recebido por e-mail)
 


EL JUICIO FINAL
(Rolando Toro Arañeda)

Porque el final es el comienzo
donde el niño y el anciano
se contemplan.

Vuelve tu rostro hacia los viejos huertos
A la partida del barco
que se aleja,
con toda tu infancia
en sus bodegas oscuras

Vuelve al infinito
con sus rostros ausentes
como el astronauta que perdió la ruta

El tiempo se estremece
cuando miras hacia adentro
y se inicia la resurrección
de los muertos

SOLO TU CORAZON ASISTE AL JUICIO FINAL
“Lo imposible puede suceder”
Rolando Toro Araneda




quinta-feira, 28 de maio de 2009

A TECNOLOGIA DO ABRAÇO

Autor: Luiz Madureira Campos


O matuto falava tão calmamente, que parecia medir, analisar e meditar sobre cada palavra que dizia...


- É... das invenção dos hómi, a que mais tem sintido é o abraço.
O abraço num tem jeito dum só apruveitá! Tudo quanto é gente, no abraço, participa duma beradinha...
O abraço é mió qui quarquer raiz ou ramo qui o Raizêro possa cunhecê...


- Condi ocê ta danado de sordade, o abraço de arguém ti alivia...
- Condi ocê ta danado de rarva, vem um, te abraça e ocê fica até sem graça de continuá cum rarva...
- Si ocê ta filiz e abraça arguém, esse arguém pega um poquim de sua alegria...
- Si arguém ta duenti, condi ocê abraça ele, ele começa a miorá... I ocê miora junto tomém...


Muita gente importante e letrado já tentô dá um jeito de sabê pruquê quié qui o abraço tem tanta tequolonogia... Mas ninguém inda discubriu... Mas iêu sei... Foi um isprito bão de Deus qui mi contô...
Iêu vinha andano... pensano na vida, condirrepênti vi um tatuzim pertim do mato... Vi ele cum esses mermo zói qui a terra um dia há de cumê...I ele falô cumigo... Falô com a fala quié a merma fala qui ocês cunhece iquiêu tô falano pruceis agora.
Iêu vô contá pruceis uqui foi qui ele mi falô:


O abraço é bão prucausa do Coração...
Condi ocê abraça arguém, fais massage no coração!...
I o coração do ôtro é massagiado tomém! Mas num é só isso, não...
Aqui ta a chave do maior segredo de tudo:
É qui, condi abraçamo arguém, nóis fiquemo tudo
é com dois coração no peito!...


* Publicação do texto autorizada via e-mail pelo autor em 24/12/2009
Texto originariamente publicado, segundo o autor, em 03/11/2009, em  http://www.autores.com.br/component/option,com_mycontent/Itemid,6/id,25155/task,view/

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Duas práticas pedagógicas importantes

Para a construção de uma organização biocêntrica, dentre os muitos conceitos que contribuem para um espaço de aprendizagem consonante com a educação biocêntrica, duas práticas pedagógicas, que aliadas aos princípios no tópico abaixo apresentados apresentados, são de essencial importância para o consultor, pelo líder ou pelo facilitador estimulando-as em seu grupos:

- Autonomia

Segundo Freire (1996), ensinar não é transferir nem depositar conhecimento no outro. Ensinar é uma ferramenta importante para a prática educativa e somente atinge seu objetivo quando visa a inserção crítica, social, cultural e política dos ensinandos, de modo a proporcionar-lhes autonomia. Daí sua afirmação de que ensinar não é transferir conhecimento (de quem conhece para quem não sabe). É, antes de tudo, criar possibilidades para a sua produção ou a sua construção.

Para este mesmo autor, é na construção crítica e contextual, com assuntos que tenham sentido na vida do aprendiz, que o ensinante[1] “se forma e re-forma ao formar e quem é formado forma-se e forma ao ser formado... quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender” (Freire, 1996: 22) e, concluindo, afirma que “o ensinado que não foi apreendido não pode realmente ser aprendido pelo aprendiz”, ou seja, o aprendiz deve ter condições de recriar ou refazer seu aprendizado.

Ainda segundo este autor, a comparação, a repetição, a dúvida rebelde, a constatação, a curiosidade não facilmente satisfeitas devem ser sempre estimuladas como energias propulsoras da força criadora. O ensinante deve criar meios para que se estabeleça no ensinando a curiosidade permanente e a reflexão crítica do conhecimento que deve ser estabelecido dentro de uma relação processual entre teoria e prática – “o exercício da curiosidade a faz mais criticamente curiosa” (Freire, 1996: 83).

Essa prática do ensinar curioso e crítico que almeja o saber apreendido e não apenas aprendido, exige reflexão e adoção de atitudes por parte do educador que servir-lhe-ão de essência para ensinar o ensinando a olhar o mundo à sua volta e que, ao percebê-lo em sua realidade, dele se aproprie. Ensinar exige, antes de tudo, ética para um pensar certo, com a corporeificação das palavras pelo exemplo. (Freire, 1996)

Freire (1996: 35) também enfatiza que ensinar exige risco, aceitação do novo e rejeição a qualquer forma de discriminação. Para este autor, pensar certo é poder arriscar, aceitar o novo sem medo e não recusar o velho apenas por ser velho, mas apenas por ter sido superado: “o velho que preserva sua validade ou que encarna uma tradição ou marca uma presença no tempo continua novo”. É também rejeitar qualquer prática preconceituosa de raça, de classe, de gênero que ofenda a substantividade do ser humano e negue radicalmente a democracia. Portanto, educar, é proporcionar condições que permitam o desenvolvimento da autonomia.

- Afetividade

Para Henri Wallon[2] a construção do eu depende essencialmente do outro e as emoções têm papel preponderante no desenvolvimento da pessoa, pois é por meio delas que a pessoa exterioriza seus desejos e vontades. (Santos, 2003)

Heloysa Dantas, citada por Santos (2003: 31) assim fala sobre emoção: “a emoção é altamente orgânica, altera a respiração, os batimentos cardíacos e até o tônus muscular, tem momentos de tensão e distensão que ajudam o ser humano a se conhecer”.

Izabel Galvão complementa: “a emoção causa impacto no outro e tende a se propagar no meio social” (apud Santos, 2003: 31).

O educador biocêntrico expressa sua afetividade aos educandos de maneira incondicional, fomentando-a em cada um do grupo, de modo a obter abertura para um maior desempenho na prática educativa. É possível ensinar e aprender com alegria como FREIRE nos alerta: "o espaço pedagógico é um contexto de aprendizagem democrática” (1996: 97).

Colocar alegria no espaço pedagógico não significa descuidar da rigorosidade metódica. A curiosidade rigorosa deve ser sempre estimulada com o entendimento de que “uma das condições necessárias a pensar certo é não estarmos demasiados certos de nossas certezas” (Freire, 1996: 27).

O amor ou a afetividade podem caminhar juntos com a formação científica, como afirma Freire: "a prática educativa é tudo isso: afetividade, alegria, capacidade científica, domínio técnico a serviço de mudança” (1996: 143).

A vivência da afetividade atua biologicamente no ser e resulta das protovivências adquiridas enquanto bebê e, daí em diante, das vivências da pessoa, aliadas à integração córtico-diencefálica, sendo canalizada para: o amor incondicional, a compaixão, a ternura, a solidariedade, a amizade e para o altruísmo, como se observa no Quadro 3 - Esquema da Afetividade, apresentado ao final deste Blog.

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[1] Conceito utilizado por Paulo Freire para a concepção do professor enquanto agente de facilitação do processo de construção do saber contextual e crítico pelo ensinando (Freire, 1996)

[2] Paris, França (1879 – 1962). Graduou-se em Medicina, Psicologia e Filosofia. Dedicou-se a conhecer a infância e os caminhos da inteligência nas crianças. Contribuiu para importantes reformas do sistema educacional na França. (Santos, 2003)

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Fonte: SAMPAIO, Irene Nousiainen. Organização Biocêntrica - emergência de um novo paradigma na administração. Fortaleza, 2005. 116 p. Monografia (Especialização em Educação Biocêntrica - A Pedagogia do Encontro) – Universidade Estadual do Ceará.

Princípios essenciais

Os princípios da Educação Biocêntrica, a seguir explicitados, são de essencial importância para que se estabeleça uma coesão circular saudável na organização biocêntrica.

Ressalto aqui a separação apenas didática entre a organização e a vida das pessoas fora dela (dimensões relacionais integradas: biológica, física, familiar, social, cultural e religiosa), pois dentro do conceito complexo de redes integradas, como já tratado anteriormente, suas vidas estão relacionadas entre si e com a vida organizacional como um todo, dentro e fora dela e, portanto, uma modifica a outra (vide quadro 4 - Cuidados saudáveis com os vínculo.

O educador biocêntrico deverá tê-los apreendido conceitualmente para que possa mediar o ensino-aprendizagem pautado, de fato, no diálogo vivencial e pleno que liberta, no encontro amoroso com o outro e um profundo respeito a tudo que existe - à vida.


3.3.1.
Princípio biocêntrico

A Educação Biocêntrica tem sua essência primordialmente, em contraposição ao paradigma antropocêntrico sobre o qual estão erigidas as ciências ditas modernas, no paradigma do princípio biocêntrico, que, segundo Toro, “tem como referência imediata a vida, e se inspira nas leis universais que conservam os sistemas vivos e que tornam possível sua evolução” (2002: 50).

Rolando Toro considera o princípio biocêntrico um ponto de partida para um novo olhar ao mundo, estabelecendo-se como estruturante das novas ciências do futuro, marcando dessa forma, uma profunda e complexa mudança de visão de mundo – a vivência de uma mudança de época como explicitado em capítulo anterior deste trabalho.

A importância do princípio biocêntrico enquanto paradigma dá-se na concorrência para uma mudança estrutural do nosso modo de viver, uma vez que proporciona uma mudança existencial de sentir-se e de estar no mundo aqui-agora e não puramente da visão intelectual de mundo, do ponto de vista da racionalidade. A subjetividade ganha importância e alia-se à objetividade, trazendo à luz o ser humano inteiro enquanto singularidade inserida na teia da vida, cultivando as energias potencializadoras, organizadoras, conservadoras e dinamizadoras da vida.

Esse novo jeito de viver a vida proporciona no ser humano mudanças radicais, uma vez que percebe o universo como um sistema vivo, composto de uma rede de sistemas vivos diversos intra e interconectados, compreendendo tudo que existe, conforme explicitado por Toro:

O reino da vida abrange muito mais que os vegetais, os animais e o homem. Tudo que existe, dos neutrinos ao quasar, da pedra ao pensamento mais sutil, faz parte deste sistema vivo prodigioso. Segundo o princípio biocêntrico, o universo existe porque existe a vida, e não o contrário (2002: 51).

A partir desta visão, a pessoa buscará cuidar de si, do outro e do meio, compreendendo, afinal, que mesmo que o ser humano consiga destruir-se a si enquanto espécie, a vida continuará.

Portanto, sob esse enfoque, as organizações devem ser percebidas como complexos sistemas vivos. A vida das pessoas e a vida da organização são igualmente privilegiadas, compreendendo-se ser esta um todo que se expressa a partir da existência de uma unidade complexa de diversidades/singularidades – as pessoas.

Uma organização comprometida com a vida valoriza as pessoas como seres autônomos, criativos, singulares, pois que são diversas entre si. Incentiva a saúde individual e do grupo, a melhoria e o fortalecimento dos vínculos entre as pessoas e destas com a organização como um todo e vice-versa.

A instituição/empresa biocêntrica conta com líderes orientados por valores humanos e de vida, de modo a dinamizar as potencialidades saudáveis de cada um. Assim, são privilegiados a vitalidade, autonomia, desejo de realização, criatividade, fortalecimento de vínculos afetivos saudáveis, vida interior construtiva e libertadora.

3.3.2. Princípio da progressividade

A progressividade consiste no respeito ao movimento interior de cada pessoa. É um dos mais importantes princípios preconizados pela Educação Biocêntrica, pois revela o cuidado consigo e com o outro, tão importante para o fortalecimento dos vínculos internos relacionais (não hierarquizados) com o meio: educante-educando, educando-educandos, educando-meio social.

Este princípio revela-se em cuidado necessário com o ritmo interno da própria pessoa, de modo a possibilitar a corporeificação progressiva, de novos valores, conceitos e teorias, conforme seus próprios avanços. Dessa forma, com o cuidado amoroso, o aprendizado se dá de forma progressiva a qual avança conforme vão se ampliando os limites do educando, promovendo um aprendizado, de fato, assimilado, no sentido de corporeificado em todas as dimensões da pessoa.

3.3.3. Princípio vivencial

Segundo Almeida (Apud Góis, 2002: 69), a vivência se dá de duas formas:- vivência epistemológica – possibilidade de a vivência levar ao conhecimento ou fazer-se conhecer, denotando redução;- vivência ontológica, totalizadora, que trata da vivência mesma do Ser.

Almeida assim define vivência:

A vivência é. A vivência tem sentido, a vivência não separa minha alma da alma cósmica, como fazia o paradigma cosmocêntrico; a vivência não afasta meu corpo do meu espírito como fazia o paradigma teocêntrico; a vivência não hierarquiza a criação, não me torna dicotômico, como faz o paradigma antropocêntrico. A vivência me funde com a Vida, me faz Biocêntrico. (...) A vivência é Ser. Afirmar o SER é ontológico, porém ontologia da vivência: simplesmente afirmando que o SER, que é auto-evidente, tem sentido em si mesmo, o ser estrutura estruturante: Bios (Almeida apud Góis, 2002: 70 e Andrade, 2003: 33).

Na visão ontológica e biocêntrica de Góis (2002: 69), a vivência é "viver o estar-aqui, do instante, do corporal e do estético, da identidade que expressa a vida em sua singularidade, imediaticidade e beleza". É a presentificação do viver cada instante de forma intensa, inteira.

A dinâmica do processo ensino-aprendizagem que busca fornecer meios legítimos, tanto para o educando quanto para o educador, enquanto integrantes de um mesmo sistema proposto pela Educação Biocêntrica, parte também da vivência como vínculo impulsionador das estruturas cognitivas que levam à conscientização com enfoque na construção do conhecimento crítico – a tomada de consciência –; nos instintospotenciais genéticos[1], fortalecendo a função de conexão com a vida. como anteriormente explanado; e, na expressão dos

Através de vivências de amor, harmonia e prazer de viver, busca-se proporcionar uma aprendizagem legítima consolidando, não de modo estático, mas essencialmente dinâmico e processual, o conhecimento construído, a partir de elementos cognitivos e vivenciais. A vivência não está subordinada à consciência, porém esta se encontra enraizada na própria vivência. (Góis, 2002).

3.3.4. Princípio da auto-regulação

A auto-regulação é um princípio latente em todos os seres vivos. Ela possibilita a perfeição dos sistemas homeostáticos dos seres vivos, estando intimamente relacionada ao equilíbrio interno, de altíssimo grau de precisão, direcionado para a conservação da unidade orgânica.

Nos grupos, a auto-regulação pautada no conhecimento de si mesmo e de seus limites leva ao respeito a si mesmo enquanto singularidade.

3.3.5. Princípio da transmutação de valores

A ressignificação do modo de perceber o mundo e de nele atuar pode acontecer com a transmutação de valores que pode ser desenvolvida por meio de vivências de transcendência, do diálogo e do encontro com o outro.

3.3.6. Princípio da dinamização do saudável

Atuar na parte sã da pessoa e de situações, potencializando nelas o que há de saudável e de vida, é um dos princípios mais importantes da Educação Biocêntrica. Sai o foco no que está doente ou errado, para o que tem possibilidade de ser dinamizado para a saúde do ser, ou ainda, para soluções saudáveis de situações críticas.

3.3.7. Princípio da transvaloração cultural

Também chamada de transmutação de valores ou reculturação, a transvaloração cultural permite um novo olhar sobre a cultura, por meio do repensar os interesses variados que permeiam as ideologias existentes erigidas, no decorrer da história.

Promove-se, então, a ampliação dos conhecimentos culturais induzindo o respeito à diversidade cultural, à diferença. São propostas novas perspectivas culturais, sociais e históricas, a partir da percepção de si mesmo como sujeito que participa ativamente da construção social da história e da cultura aqui-agora, consciente dos contextos ideológicos. (Cavalcante, 2001).

É por meio da problematização da realidade contextualizada, da abertura a novos valores, conceitos e teorias que se pode transvalorar a cultura, saindo do enrijecimento, da fossilização que adoece e mata, para a flexibilização, a criatividade, a inovação, a mudança sempre saudavelmente agregadora da realidade entendida como processo em prol da vida.

3.3.8. Princípio da reciprocidade

A partir do princípio da reciprocidade, estimula-se o encontro dialógico, tanto no plano corporal como no verbal, que resulta no crescimento humano existencial e teórico, por todo o seu tempo de existência, respeitando-se os limites de cada pessoa. O diálogo com cada pessoa do grupo é um importante meio para que o relacionamento intra-grupal seja saudável.

3.3.9. Outros princípios importantes

Andrade (2003: 141) aponta ainda outros princípios, os quais encontram-se intimamente inter-relacionados e que dão essência e caracterizam o caminho a ser percorrido pela Educação Biocêntrica: transcendência, auto-cura, ação auto-plástica, estrutura grupal, importância da situação em si, ação sobre a parte sã, princípio de ressonância musical, indução de transe integrativo, princípio integracionista, princípio de realidade, esquema de harmonia, acesso à identidade, diferenciação, integração corporal, vinculação pelo diálogo, renovação sexual e movimento amor

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[1] Toro (2002) defende a importância de se estimular o desenvolvimento genético durante toda a curva da existência da pessoa, pois para o mesmo “a totalidade do nosso potencial genético é contida em cada uma de nossas células; a natureza, para preservar a informação, a reproduz milhões de vezes. Certos genes permitem, ou impedem, a expressão de determinadas características. Assim, por exemplo, a inteligência, o tom de voz, a sensibilidade cenestésica, dependem da ação conjunta de genes diversos. No processo de expressão genética, algumas potencialidades permanecem em silêncio, pois não encontram os eco-fatores específicos necessários para que elas se manifestem. Ademais, as potencialidades genéticas podem ser consideradas como elementos altamente determinados que são dotados de uma grande estabilidade, cuja expressão dependerá das condições oferecidas seja pelo ambiente externo, seja pelo próprio organismo".

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Fonte: SAMPAIO, Irene Nousiainen. Organização Biocêntrica - emergência de um novo paradigma na administração. Fortaleza, 2005. 116 p. Monografia (Especialização em Educação Biocêntrica - A Pedagogia do Encontro) – Universidade Estadual do Ceará.

A expressão dos potenciais biológicos e a vivência da identidade saudável

Segundo Toro (2002), as estruturas orgânicas, as funções vitais, a forma e a constituição corporal expressam as potencialidades genéticas, sendo as emoções, os sentimentos e as vivências suas expressões psicológicas. Os sistemas vivos são compreendidos como neguentrópicos, isto é, sistemas abertos com capacidade de renovação, sem perder o que lhes caracteriza essencialmente.Após vários anos de estudos e pesquisas fenomenológicas sobre vivências na Biodanza, Toro chegou à tese de que:

Todos os aspectos da vida humana, considerados tradicionalmente como integrantes da esfera psíquica, têm uma origem biológica. Eles são gerados no coração dos processos celulares, e chegam por diferenciação à qualidade de impulsos, de pulsões e de instintos, e se transformam, no homem, em vivências, emoções e sentimentos (2002: 84).

Ainda a partir de suas pesquisas, Toro (2002) encontrou correspondência entre a expressão das potencialidades genéticas e as principais aspirações humanas, chegando a cinco modalidades da referida expressão, as quais denominou linhas de vivência, que, segundo ele, têm sua origem na experiência original intrauterina, denominada por Jung como "experiência oceânica”, cuja diferenciação tem sua origem nas protovivências[1] caracterizadas pelas respostas aos estímulos internos e externos. É sobre a impressão deixada pelas protovivências que a vivências posteriores se desenvolverão.

Somos uma organização orientada por um vir a ser contínuo mediado pela relação com o outro e com o meio, gerando, assim, o ciclo permanente da auto-organização, através da interconectividade caracterizada na relação sistêmica, significando o que nominamos de Princípio Biocêntrico retratado na evolução estimulada pela relação entre o Uni e o Verso = Universo, ou seja, revelando o todo sistêmico, a Vida (Cavalcante, 2001: 103).

Ainda segundo Cavalcante, quando expressamos por meio da vivência os potenciais genéticos (ou biológicos), “fortalecemos o nosso vínculo com a vida, e vinculados com a vida, ampliamos a nossa consciência através da autopoiese, assumindo, assim, verdadeiramente, a condição de sujeitos da nossa aprendizagem” (2001: 100).

Os potenciais genéticos são expressos nas linhas de vivência que movimentam-se em processos evolutivos, orientadas por níveis de mudanças e manifestam-se em nossa expressão da vida como Ser de relação em sistema, conforme a seguir explanadas, segundo Toro (2002) e Cavalcante (2001):

a) Vitalidade: envolve a saúde, ímpeto vital, alegria de viver. Esta linha é gerada a partir de funções de regulação da atividade e do repouso e que mantém a homeostase[2], compreendendo os instintos de conservação, de fome, de sede, respostas de luta e fuga, o inconsciente vital. São indicadores de vitalidade: resistência ao esforço, vitalidade do movimento, estabilidade neurovegetativa, potência dos instintos e o estado nutricional. Características externas que podem expressar a vitalidade: facilidade para rir, agilidade dos movimentos, som e expressão da voz, brilho e intensidade do olhar, harmonia e vigor dos gestos.

b) Sexualidade: envolve o prazer sexual, reprodução, vínculo sexual, prazer, sensualidade, contato; compreende o instinto sexual, o orgasmo, o desejo e a busca do prazer, as múltiplas emoções envolvidas na satisfação sexual, cuja finalidade biológica é a reprodução. Um intenso desejo sexual mobiliza o organismo por inteiro; é a sensibilidade global aos estímulos do prazer (pelos alimentos, pelo banho, pela brisa, pela chuva, pelo carinho, pelo beijo, pelo toque terno, pela dança, pela música, etc.).

c) Criatividade: envolve a inovação, construção, imaginação, instinto de exploração; somos, ao mesmo tempo, a mensagem, a criatura, o criador; incentivo aos impulsos criadores naturais – "nossa grandeza se encontra em nossa vida"; a natureza é um eterno ato criativo.

d) Afetividade: refere-se ao amor, amizade, altruísmo, empatia; relacionada ao instinto de solidariedade dentro da espécie, capacidade de empatia, aos impulsos gregários, às tendências altruístas e aos ritos socializantes. Difere da vivência em complexidade e por permanecer ao longo do tempo; implica a participação da consciência, da memória e da representação simbólica; afetividade é um estado de afinidade profunda para com os outros seres humanos.

e) Transcendência[3]: envolve a ligação com a natureza, sentimento de pertencer ao universo; a procura de harmonização com a natureza em sua totalidade; é uma função biológica e culmina na experiência suprema de identificação com o universo. O impulso místico é visceral, sendo a experiência mística a provocadora de profundas transformações na homeostase, no nível orgânico e no nível existencial; refere-se à superação da força do próprio Eu e à possibilidade de ir mais além da autopercepção, para identificar-se com a unidade da natureza e a essência da pessoa; sensação de ligação íntima com a natureza e com o próximo.

É na vivência integradora das linhas de vivência mencionadas por Toro (2002) que o aprendizado acontece numa interação processual contínua, não estanque, mundo interno/mundo externo onde ambos interagem, modificam a si mesmos e modificam o outro.

Ao final deste Blog, encontra-se o Quadro 5 – Expressões dos potenciais genéticos e as linhas de vivência, adaptado pela autora deste trabalho, o qual apresenta de modo resumido e simples uma visão mais abrangente da expressão das potencialidades humanas em cada linha de vivência com seus princípios e características.

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[1] Experiências do recém-nascido nos seis primeiros meses de vida.

[2] Refere-se ao equilíbrio das forças que mantém o organismo. (Toro, 2002)

[3] Transcender é a possibilidade de ser diferente, de fazer de outro modo, de romper e ir além do estabelecido.

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Fonte: SAMPAIO, Irene Nousiainen. Organização Biocêntrica - emergência de um novo paradigma na administração. Fortaleza, 2005. 116 p. Monografia (Especialização em Educação Biocêntrica - A Pedagogia do Encontro) – Universidade Estadual do Ceará.

Identidade - a expressão de si no mundo

A Educação Biocêntrica entende a pessoa como um ser dotado de múltiplas inteligências e as desenvolve através da vivência. Sua proposta é enfocada no desenvolvimento cognitivo e das múltiplas inteligências com base na vivência afetiva e criativa, resultando em um ser mais integrado consigo, com o outro e com o meio, numa identidade fortalecida que adota um estilo de vida saudável preparada para viver em harmonia com o meio.

A percepção do "si mesmo", do sentimento de vida, conforme GÓIS expressou em Cavalcante (2001:11-32), se dá a partir do "sentir-se vivo", corporeidade vivida, base que fortalece e revela a identidade surgida como singularidade, como autopoiese particular da autopoiese cósmica.

Ainda para Góis, a identidade se estabelece quando o indivíduo consegue sentir-se como "centro de percepção de si e do mundo, sentimento este que é corporal, comovedor e conectado a tudo o mais" (2002: 56). E conclui:

O ponto de partida estruturador da identidade é o sentir-se vivo, instante de presença e transmutação da corporeidade vivida em mais presença e mais vínculo com o mundo, fazendo-se, desse modo, corporeidade amorosa, fortalecendo e permitindo a revelação da identidade como algo único e conectado a tudo o mais. Identidade como expressão de uma totalidade e não de partes de si mesmo, só possível de se realizar na imediaticidade do viver, portanto na vivência e não na consciência. O ser humano é incapaz de compreender a identidade (ou o si-mesmo no mundo), mas é capaz de senti-la, intuí-la e viver a liberdade nela presente, principalmente na forma de movimento, expressão, dança e linguagem (Góis, 2002: 56).

A identidade é estruturada através da vivência, cuja expressão saudável é o que buscam dinamizar a Biodança e a Educação Biocêntrica, por meio de exercícios específicos, utilizando, para tanto, a música, o movimento e a emoção.

A permeabilidade e a pulsação são duas características essenciais à identidade que proporcionam a capacidade de crescimento humano, a partir da presença do outro.

A permeabilidade é a capacidade da identidade de interagir com o outro e com o meio, absorvendo ou influindo.

A pulsação permite à pessoa variar entre sentimentos de identidade, de consciência corporal e estados regressivos que proporcionam a diminuição da percepção dos limites corporais e levam ao estado de transe.

Segundo Toro (2002), uma identidade integrada é aquela que apresenta um conjunto de processos que põe em correlação as partes com o todo, de modo a manter a unidade da pessoa e buscando aumentar sua estabilidade dinâmica, portanto, na visão ainda desse autor, um organismo são é aquele que acolhe os eco-fatores que reforçam sua unidade e rejeita os que o colocam em perigo. É importante que sejam aumentados os eco-fatores que reforçam a estabilidade intrínseca do organismo como um todo. Uma pessoa saudável, para Toro, deve apresentar essencialmente:

- ausência de agressão gratuita;

- capacidade de estabelecer um limite às agressões externas;

- capacidade de fuga frente a uma força superior (instinto de sobrevivência);

- capacidade de intimidade;

- estabilidade frente às dificuldades;

- ausência de espírito de competição;

- ausência de autoritarismo;

- alto nível de vitalidade;

- capacidade criativa;

- percepção de si mesmo como criatura portadora de um valor intrínseco;

- percepção do semelhante como único, diverso e portador de um valor intrínseco;

- motricidade caracterizada por equilíbrio, vigor e sinergia (2002: 103)

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Fonte: SAMPAIO, Irene Nousiainen. Organização Biocêntrica - emergência de um novo paradigma na administração. Fortaleza, 2005. 116 p. Monografia (Especialização em Educação Biocêntrica - A Pedagogia do Encontro) – Universidade Estadual do Ceará.